Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Beijo de Mulata

Beijo de Mulata

16
Jun13

[relativismo cultural] febre e mal estar

beijo de mulata
Há dias, na reunião da manhã no meu hospital, ouvi falar de uma adolescente que tinha sido internada por febre e mal estar geral com cerca de 3 semanas de evolução.

Tratava-se de uma menina de 13 anos, frágil, magra, com olhos negros e tristes. Nascera na Guiné-Bissau, numa cidade longe da capital e ficara privada da mãe seis anos antes, altura em que esta tivera de vir para Lisboa, acompanhando um irmão mais novo com uma epilepsia grave e atraso de desenvolvimento. A mãe vivera os primeiros anos com o filho, entre casa e hospital, entre consultas e internamentos, entre enfermarias e cuidados intensivos, medicamentos com nomes esquisitos e efeitos secundários de que nunca ouvira falar mas que tinha de monitorizar diariamente.

Chorara apenas no primeiro dia, quando lhe disseram o menino poderia melhorar um pouco, mas nunca poderia vir a ter uma vida normal e que teria de fazer medicação para o resto da vida, medicação essa que não existia na sua cidade natal e que, por isso, mãe e filho nunca mais viveriam junto dos seus. Depois do primeiro dia, aceitou a doença e lutou com todas as suas forças pela vida do filho e pela sua, trabalhando de forma precária nos poucos dias que a doença do filho lhe dava tréguas. Perguntou se pelo menos poderia então reunir a família em Lisboa e criar os outros filhos, mas essa é uma situação que não está prevista na lei. A reunião familiar é imigração ilegal. Por mais relatórios que os médicos escrevessem atestando que o menino teria de ficar a viver para sempre em Portugal, isso não lhe dava o direito de trazer os outros filhos menores. O compromisso do estado português era apenas para com o filho doente. Os outros eram problema seu! Imagino o frio no coração daquela mãe, dividida entre um filho doente e que nunca poderia vir a ter uma vida independente, e os outros filhos lá longe e que ainda precisavam tanto dela.

Só ao fim de alguns anos é que a doença do filho estabilizara e conseguira um contrato de trabalho. Só depois a autorização de residência. Ao fim de seis anos conseguiu mandar vir as outras duas filhas, que deixara ainda meninas ao cuidado da avó materna e que agora vinham adolescentes, começar a vida por que tinham sonhado durante os primeiros anos, mas que agora já não sabiam se desejavam mesmo, pois já tinham aprendido a viver sem a mãe e iniciado a difícil tarefa que é crescer e ser adolescente entre os seus pares.

A mãe não explicara nada disto ao médico do serviço de urgência. Dissera apenas que não reconhecia a filha, que chegara dois meses antes, muito bem disposta, mas que desde há três semanas estava com febre, mal estar, apática, sem forças e sem apetite. Perdera peso. Deixara de ir à escola? perguntara o médico. Que não. Até porque nunca fora. Ainda não tinha tido oportunidade de ir inscrever a filha na escola. Provavelmente só entraria no ano letivo seguinte. Até lá passava o dia a cuidar da casa.

Na cabeça do meu colega surgiram muitas luzes vermelhas: febre arrastada, mal estar, perda de peso. África! Doenças exóticas. Tuberculose. Malária.

Durante todo o dia, a menina com um ar triste e assustado fez análises, ecografias, uma TAC crânio-encefálica, uma punção lombar sob anestesia geral. Por fim foi internada enquanto aguardava os resultados.

Na reunião da manhã, no dia seguinte, os meus colegas relatavam os resultados dos exames: todos normais à exceção de uma discreta anemia por falta de ferro. E que estava sem febre desde a entrada, há quase 24 horas.

Respirei fundo. Pedi a palavra. Não gosto de interromper as reuniões, mas desta vez achei importante dizer algo. Expliquei que na Guiné-Bissau, tal como no Moçambique que eu conheço, o conceito de febre é subjetivo. Quer apenas expressar um mal estar geral. Insisti que, para perguntar se a pessoa tem febre, devemos sempre indagar se o corpo ficou quente. São conceitos diferentes e independentes. A menina estava sem febre desde a entrada porque provavelmente nunca tinha tido febre nenhuma.

Não pude deixar de me sentir gelada por dentro. Aquela mãe coragem, que lutara seis anos para que a vida e a família lhe fosse devolvida, era ainda a mãe negra da canção de Paulo de Carvalho. A mãe negra que não sabe nada, analfabeta e longe dos seus códigos culturais. Ela sabia (como não?) o que se passava com a sua filha, desenraizada e triste, perdida num planeta desconhecido. Se estivesse na Guiné saberia a quem pedir ajuda. Levaria a filha à avó materna e ao curandeiro, para que entre rezas, feitiços, placebos, mimos e cuidados, a angústia se desvanecesse. Mas em Lisboa só podia ir pedir ajuda aos médicos.

Não interferira na investigação médica. Como qualquer mãe africana que se preze, suportou todos os exames e tratamentos firme à cabeceira da filha. Assistiu a tudo de perto, sofrendo por dentro, mas com esperança. Médico de Lisboa é muito sabedor. Os exames à cabeça talvez pudessem ler os maus pensamentos e as angústias da filha, talvez os pudessem apagar, dando lugar à alegria pueril com que a deixara seis anos antes...

Nesse dia continuei gelada. E triste. E envergonhada. Eu sei que pelo menos o problema foi identificado e a menina começou a ser tratada para aquela depressão grave. Com mais exame, menos exame, mais mal-entendido menos mal-entendido, o diagnóstico foi feito. Mas ninguém pode devolver os seis anos roubados a esta família. E a tantas outras na mesma situação...
26
Abr12

[outras palavras] guiné-bissau

beijo de mulata

África maravilhosa!
Foto descaradamente roubada à Domadora de Camaleões...


Diz o meu guru espiritual, natural da Guiné-Bissau e inspirador do meu funcionamento em "modo África":
«Sempre achei que o que o meu país precisava de mim e das pessoas da minha geração era que adquiríssemos competências em várias áreas e conseguíssemos aplica-las no seu desenvolvimento ou que nos permitisse honrar o seu nome em qualquer país ou organização onde estivéssemos inseridos. Tudo o que não precisava, era que contribuíssemos para engordar a lista de pseudo-políticos e pseudo-intelectuais que abundam na nossa terra.
Depois de tantos anos de treino, considerava que era um “desperdício” não me concentrar, quase em exclusivo, em tentar pensar e aplicar a técnica e o raciocínio aprendido ao longo deste tempo em algumas transformações possíveis de serem aplicados no meu país (quer directamente ou à distância). Por isso, apesar de ter sido sempre um cidadão atento e empenhado, deixei de me preocupar com muitas acções, partidos e pequena política da nossa praça e, ainda, de participar em algumas feiras de vaidade em que se transformavam alguns encontros e espaços de debate.
No entanto, neste momento decisivo da nossa história colectiva, em que alguns irresponsáveis nos puseram (e voltarei a este tema brevemente), parte do meu tempo será dedicado para uma contribuição mais directa na luta contra qualquer forma de ditadura, seja ela militar ou outra, e para a instauração de um país verdadeiramente democrático, livre e justo, que aspire a um outro patamar de desenvolvimento.
Devo-o a mim, à minha família e ao meu povo que merece melhor sorte.
Por isso, caros amigos, vamos lá fabricar ideias e acções que nos ajudem a passar para um outro nível enquanto país e enquanto povo.»
E eu tiro-lhe o chapéu! Porque há homens de escroto vazio e mente apática que não têm sequer coragem de pensar o que este senhor escreve...
26
Abr12

[guiné-bissau] não passarão!

beijo de mulata
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

Miguel Torga in Poemas Ibéricos, 1965
17
Abr12

[a guiné-bissau] o que poderemos fazer?

beijo de mulata
A hora do polvo espero que para mim ainda esteja longe...

A Helena Ferro de Gouveia, ilustre Domadora de Camaleões da blogosfera tem-nos mantido a par do que se passa na Guiné-Bissau e das dificuldades por que passam os doentes e pessoal técnico no Hospital Simão Mendes, na capital... Se já é arrepiante imaginar o que será aquele hospital num período de funcionamento normal, acho que estive estes dias a tentar afastar da ideia a imagem daquele mesmo hospital sem medicamentos, sem comida, sem água ou electricidade. Hoje, felizmente, o post aliviou-me um pouco a angústia...
Nos pequenos gestos encontramos a diferença que nos leva a continuar a ter esperança na condição humana. Os apelos do Hospital Simão Mendes em Bissau, de que fiz eco aqui, foram sendo respondidos pelos próprios guineenses. Num dos países mais pobres do mundo a generosidade foi esmagadora. Cidadãos comuns, jovens, farmacêuticos e empresários uniram esforços que tornaram possível que a alimentação esteja garantida até sexta-feira e o material de emergência médica até quarta-feira.
Bem hajam. 
21
Fev12

[outras paragens] o carnaval em bissau

beijo de mulata

Fantástico, o Carnaval em Bissau! 
Foto de Helena Ferro de Gouveia, a Domadora de Camaleões.

?
Só pela imagem apetece viajar para poder tomar parte nestes momentos! Deixo-vos com um excerto do post da Helena Ferro de Gouveia: "O Carnaval da Guiné Bissau".
"Muito longe dos carnavais “ricos” de outras paragens, em Bissau dança-se quase sempre descalço, às vezes mesmo quase sem roupas, improvisa-se instrumentos musicais, até de cascas ocas de árvore, e usam-se como adereços coisas tão bizarras como um pedaço de espremedor de esfregona partido enfiado na cabeça.
Depois são as cores e os ritmos, são as esculturas feitas de lama e depois pintadas, é a mesma lama a cobrir corpos, umas vezes de branco outras de castanho, uns espelhos pequenos pendurados, por vezes corpos esfregados com óleo e sementes coladas na pele."
12
Set11

[as melhores do serviço de urgência] tem problema di sangue...

beijo de mulata
Serviço de Urgência, menina de dois anos trazida por uma osteomielite, uma infecção num dos ossos do braço. Mãe, natural da Guiné-Bissau, obviamente muito preocupada.

- A sua menina tem sido saudável?
- Sim, Doutora, nunca teve doenças antes.
- E há alguma doença na sua família?
- Não, somos todos saudáveis.
- E sabe se há alguém com tendência para ter muitas infecções? Assim alguém ou alguma criança que lhe tenham dito que tem poucas defesas?
- Não. Só eu tenho problema de sangue. Tenho... como se diz... anemia. Mas não é nada de especial.
- Mas não sabe que tipo de anemia tem?
- Já me explicaram mas não sei o nome.
- Mas faz algum tratamento?
- Sim, passaram-me um tratamento, mas há muito tempo que não faço porque disseram que não tinha cura.
- Disseram que não tinha cura? Mas não se lembra mesmo de que anemia é?
- Não sei o nome. Só sei que o meu sangue fica quadrado.
- Como?! Fica quadrado? Como assim?
- Não sei, Doutora, só me explicaram que o sangue fica quadrado.
- Mas... quadrado? Quadrado como? Não será antes... coagulado?
- Não, quadrado mesmo!
- Mas como é que lhe explicaram?
- Disseram que o sangue das pessoas é redondo, mas que o meu às vezes fica quadrado.
- [Oh, céus, mas o que será que isto quer dizer?]
- Quer dizer, não é bem quadrado, é assim mais... alongado.
- [Eureka!] Ah! Tem uma anemia falciforme!
- Sim, é isso mesmo!
- Pronto, já percebi tudo! Já sei o que é que tem a sua menina. Vamos então ao laboratório...
14
Mai11

[nomes que dizem tudo #16] mentes brilhantes

beijo de mulata
No Serviço de Urgência dois gémeos idênticos, naturais da Guiné-Bissau e residentes em Lisboa há dois meses, corriam-me pela sala de observação. Piratas de quatro anos, um terror em dose dupla, cada um para seu lado, tentando confundir a mãe que, visivelmente cansada e agastada lhes ia ralhando sem convicção nenhuma. E eu lá ia, alegremente, colhendo a história, fingindo que não os via a juntar-se para se entreajudarem na difícil escalada da marquesa e darem início a uma série de mergulhos olímpicos. Com direito a pirueta e, por vezes, a uma pequena cabeçada na minha secretária e a uma reprimenda exausta da mãe.

- Sócrati, não faz isso! És tu qui disencaminha teu irmão!
- Ah, que engraçado, é Sócrates como o nosso Primeiro-Ministro?
- Não, é Sócrati como o filósofo grego... [Ora toma que é para aprenderes!]

Ora então o Sócrati, estava cheio de calafrios há dois dias e a mãe temia que fosse algo de grave.

- O Sócrati já teve malária, mamã?
- Não, Doutora, só paludismo mesmo...
- Pronto, está bem... [Já estou habituada a que as pessoas não reconheçam um dos sinónimos...] Vamos vê-lo, mas de qualquer modo temos de fazer análises... E como se chama o outro? - pergunto, procurando algum Platão ou Aristóteles na lista de inscritos no computador.
- Chama-se Diskati.
- Ah, Diskati... Mas porquê Diskati? O que quer dizer?
- Não quer dizer nada, Doutora, é Diskati mesmo, como o filósofo...
- Ah, Descartes... [Ó valha-me Santa Eufrásia, eu também não aprendo... mas porque é que pergunto se depois tenho de esconder a cara e morder o lábio?] E então o que tem o menino?

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub