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Beijo de Mulata

Beijo de Mulata

16
Ago11

[outras palavras] o dia a dia de quem trabalha com sida e desnutrição

beijo de mulata



Hospital do Marrere...
(Marrere, Nampula)

Tenho uma amiga que trabalha no Marrere, a 30 km de Nampula, num projecto iniciado por ela no combate à SIDA e à desnutrição naquela zona. Por vezes escreve-me a contar como vão correndo as coisas... Vakhani-vakhani, sempre "pouco a pouco", como se diz por lá... Este foi o último mail dela.

No inicio da manhã de trabalho de sexta feira uma auxiliar do serviço de Pediatria aparece no nosso serviço justificando-se:

- Aquela mãe me fugiu!

A auxiliar tinha sido encarregada de acompanhar duas mães referenciadas para o nosso serviço, mas no trajecto entre o internamento e o pavilhão das consultas uma delas escapuliu-se com a criança.

Certamente, esta deveria ter desviado a sua atenção do trabalho que lhe tinham incumbido, na conversa com alguma colega ou conhecida, proporcionando a oportunidade à mãe de abandonar o hospital. Regressará daqui a algum tempo, já numa situação bastante mais grave, ou irá em busca do curandeiro para curar a doença que lhe diagnosticaram no hospital.

A Lucrécia é a segunda criança referenciada do internamento. Trata-se de uma menina de 8 meses, desnutrida e que necessitou de tratamento hospitalar. A mãe fez algumas consultas durante a gravidez. Numa delas perdeu-se a oportunidade de fazer o teste para o VIH. Este simples meio de diagnóstico não estava disponível naquele dia. Quero acreditar, que lhe recomendaram que voltasse no mês seguinte, o que não aconteceu e a gravidez prosseguiu sem qualquer vigilância. O parto foi em casa, como ainda é muito frequente nesta terra, e assim se passaram oito meses sem qualquer vigilância. Muitas vezes, mesmo que a criança manifeste alguns sinais ou sintomas de doença, é normal as mães ”sentarem“ em casa, à espera que passe.

Acontece com muita frequência esta falha de abastecimento de meios materiais necessários para o normal funcionamento dos serviços, o que resulta em prejuízo para os doentes, mas aqui essa situação é encarada com absoluta normalidade!

Nesta manhã de trabalho que partilho convosco faltam os cartões de saúde da criança (aliás já faltam há mais de um mês). É um documento muito bem concebido, onde é possível registar toda a informação que diz respeito à evolução do peso, desenvolvimento, vacinação, intercorrências, registar ainda informação relativa à profilaxia da transmissão do VIH no caso das crianças expostas ao vírus, hospitalizações e tratamento, alimentação. Enfim é um verdadeiro BI da criança e indispensável para o nosso trabalho. Não há nada que substitua este documento. Então as colegas vão fazendo os registos em diversos papéis sem qualquer ordem ou sequência... Enfim um caos!
Outra situação, diz respeito a um produto farmacêutico muito eficiente no combate à desnutrição grave e que deve ser fornecido às crianças que são vítimas desta situação intolerável. Hoje das 28 crianças previstas, 5 necessitavam deste medicamento

- Não há - diz a colega -, as mães podem voltar na segunda-feira.
Isto sem se preocupar com as consequências da interrupção do tratamento. O dia estipulado para requisitar os produtos à farmácia é segunda-feira e portanto não tem nada que saber: os meninos voltam na segunda-feira!

Seriam obrigados a voltar se eu não tivesse forçado a situação, contactado com a Directora do Hospital, quase obrigado a fazer o pedido para a farmácia, mais uma série de diligências para que as crianças recebessem o medicamento. Há uma atitude permanente de adiar a resolução dos problemas, de preguiça no trabalho, de desinteresse, de falta de respeito para com as crianças, de ausência de planeamento o que complica muito o nosso dia a dia. Temos de fazer um enorme esforço para conseguir realizar bem o nosso trabalho

Para mim, era inaceitável que havendo o produto disponível no armazém, a criança ficasse privada dele durante quatro dias. Nada os incomoda! O problema está sempre do lado de quem sofre, nunca do lado dos profissionais. Eu já estava muito incomodada com a situação daquelas duas meninas seropositivas. A culpa é das mães – uma porque não voltou ao posto de Saúde, a outra porque fugiu do problema. A responsabilidade nunca é dos profissionais que não fizeram o bem o seu trabalho. Conseguem imaginar uma pessoa doente, dirigir-se ao hospital em busca de alívio para a sua doença, fazer consulta e depois não conseguir receber um único medicamento prescrito? Pois, esta é a realidade nua e crua. Neste momento, o próprio Ministério da Saúde já declarou que irá haver ruptura no abastecimento das farmácias hospitalares em antiretrovirais e antipalúdicos. Isto é mesmo de arrasar!

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