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Beijo de Mulata

Beijo de Mulata

02
Ago13

[moçambique no seu melhor] do rovuma ao maputo!

beijo de mulata
Para todos os que têm saudades do tempo em que este blogue era mato... para os que têm saudades da sombra dos cajueiros, para os que já fizeram o luto de um blogue que era quase exclusivamente monopolizado pela saudade de Moçambique que me assolava o coração de alto a baixo (embora com algumas incursões pelas improváveis histórias da Estefânia) e, sobretudo, para Mr. Umbhalane, o primeiríssimo comentador deste mato, que já se manifestou contra o facto se ter infamemente transformado num baby-blog (prometo que é temporário, Mr. 1B, as circunstâncias são incontornáveis!): dedico-vos este post do André, o genial autor do Tertúlia Africana, sobre uma experiência rodoviária Moçambique afora (ou Moçambique abaixo, se preferirem uma expressão mais indicativa dos pontos cardeais que estiveram envolvidos no trajeto)... Quase do Rovuma ao Maputo dentro de um machimbombo sobrelotado, conduzido por um motorista meio louco, meio ébrio de sono.
 
 
 
 
 
 
Imagens daqui.
"Talvezsó agora tenha tido coragem de escrever esta história, ou talvez ela precisassede amadurecer para ser contada. Era um objetivo meu: fazer Pemba – Maputo porestrada, de autocarro. Porque não? É preciso tempo, já sei, espírito deaventura, tudo, mas, como seria?

Nabilheteira, de notas meio dobradas, firmes na mão, parecendo coletores dedinheiro de apostas ilegais, respondem positivamente a todas as nossas questõesde segurança. “Trocam de condutor?” – sim; “Dorme-se no caminho?” – sim;“Pára-se para comer?” – sim. Talvez devesse ter reformulado as perguntas para osfintar, mas se calhar fiz as perguntas da forma como queria ouvir asrespostas...
Oautocarro tem lugares sentados, para todos. Sim, porque coloquei a hipótese defazer uma longa jornada de pé, ou sentado na coxia em cima de alguns sacos.Nada disso, bancos individuais e cinto de segurança. O espaço para as pernasnão era muito, mas se vinha naquela viagem para me queixar do conforto tinhaapanhado um avião!
Arrancamnum grupo de 4 para fazer face às exigências natalícias e buzinam uns para osoutros. Parece que vamos em caravana, mas na realidade é uma disputa entremotoristas que se vão ultrapassando pelo caminho. Em cada manobra o alcatrãofica ainda mais fino e apenas uma reduzida percentagem de passageiros ficaentusiasmada com as manobras, gritando e batendo palmas. Os outros 80% ficam emsilêncio, engolindo em seco.
Aquiloque por fora parece um robusto autocarro, por dentro parece uma minhoca,serpenteando as estradas e saltitando nos buracos. Como nos sentamos no piso decima (o de baixo é para bagagens) dá a ideia que a cada curva vamos tombar.Talvez a fraca suspensão, talvez seja apenas psicológico...mas bolas, como assusta!
Assimque começámos a rolar a sério em plena estrada nacional, percebi que tinhaescolhido um péssimo lugar: a coxia. Inevitavelmente ia com os olhos presos naestrada e assustado com a velocidade com que um monstro daqueles se fazia àscurvas. Dava por mim a travar com o pé a bater no chão ou a tentar virar,agarrado às pontas dos meus calções. Tinha que me distrair, pois a viagem élonga, iria durar pelo menos 24 horas! A minha alternativa era olhar para olado, para a Yumi [a noiva do André], que inexplicavelmente dormia...como se sobrevoássemos asnuvens, em vez de cavalgar buracos.

Pessoalcom sérios lanches preparados. Frango, chamuças caseiras, cerveja. Nós levávamosbolachas que mal me passavam pela goela, tal era o nó que tinha. O tipo do meulado era comerciante em Pemba. Ia visitar a família e voltava dentro de 4 dias.Na mesma estrada, com o mesmo autocarro. Gabo-lhe a coragem.
Oautocarro vai à mesma velocidade, independentemente das condições do piso, dedia ou de noite. Quando chove a visibilidade reduz-se para níveis que não entendo.Suspeito que o motorista tem poderes adivinhatórios ou que já conhece tão bem a estradaque nem sempre precisa de olhar para ela. Não é que o limpa para brisas nãofuncione, ele simplesmente não existe, fazendo acumular uma camada de insetosmortos, que se transforma numa pasta opaca quando se lhe adiciona água!
Como fim do dia começaram os planos de onde iríamos parar, pernoitar, pensei. Afazer cálculos às barreiras policiais, que proíbem a passagem de transportespúblicos a partir de certa hora, a ideia era “pisar”...para conseguir passarmais cedo pelos “gajos” e conduzir mais umas horas. A sério? O condutortinha os olhos vermelhos, bem cansados, mas era o primeiro a incentivar aestratégia de velocidade.
Ébonito viajar por Moçambique relativamente devagar. Pelo menos por terra. Àmedida que descemos o desenvolvimento sobe. Palhotas tradicionais passam a casasólidas, pontes precárias para robustas. A paisagem tem um pouco de tudo: os inselbergs em Nampula, coqueirose arrozais na Zambézia, campos cultivados em Sofala, a imensidão de coqueirosem Inhambane, casas e agitação logo em Gaza.
Como aproximar da meia-noite o autocarro abranda e estamos agora a entrar numavila qualquer, com alguns candeeiros na rua. Inchope, o grande cruzamento dasestradas em Moçambique. Quando nós saímos do autocarro já várias pessoasdescansam os ossos numa vala, à beira da estrada. Sem perceber se é avaria ouparagem, o condutor diz: “saímos daqui a três horas”. Uau...avizinha-se umanoite de descanso...de 3 horas! Dá que pensar se queremos reentrar no autocarroou não, mas não há muitas condições para pensar: a noite de sono é curta e ocansaço vence-nos facilmente.
Abuzina do autocarro (inconfundível e difícil de esquecer) arranca-nos do sono ecomo múmias voltamos para dentro daquela máquina infernal, sem pensar, apenascom o destino na mente.
Nosegundo dia continua o mesmo motorista, que no dia anterior conduziu mais de900 km. Obviamente que, com o sol rasante de frente e extensões das retas aaumentar, a sonolência aparece. Não há heróis. O motorista começa a coçar commaior frequência os olhos, a cabecear e sente-se que o volante dança mais doque devia para um troço que é sempre a direito! Alguns passageiros, aaperceberem-se disso, oferecem bebidas e conversa ao motorista, sentando-seao seu lado e largando gargalhadas suficientes para entrar nos tímpanos eagitar o cérebro...
Quandosaí do autocarro em Maxixe renasci. Não acredito em Deus, mas se acreditasse,neste caso diria que Ele estava a olhar por nós naquela viagem.
Eraum objetivo e cumpri. Aventura feita, que escreverei no meu diário. A nãorepetir..."

André, bem-hajas por este pedaço de vida e de mundo! 

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