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Beijo de Mulata

Beijo de Mulata

26
Out14

[vozes brancas] neologismos

beijo de mulata
Há duas semanas tive um acidente feio: ao chegar ao jardim de infância do baby, naquele local em que costumo fazer com ele a transição simbólica do modo "casa/ mãe", em que pode ser bebé, para o modo "escola/ educadora", que que tem de ser um menino crescido, escorreguei e caí com ele ao colo.

Foi um momento terrível quando percebi que ele ia bater com a cabeça no chão empedrado do pátio... Felizmente foi um traumatismo craniano sem gravidade para o lado dele, embora só o tenha deixado depois com mil recomendações à educadora e auxiliar de que se vomitasse ou ficasse mais estranho e sonolento me ligassem de imediato. Já para o meu lado a coisa correu menos bem, porque ao tentar colocar-me debaixo dele para lhe amparar a queda, o esbardalhanço foi total e torci o pé à grande e à francesa. Quase me saiu disparado e bem articulado um palavrão francês, mas já que não podia fazer nada para remediar o assunto, também de nada adiantava praguejar, por isso calei-me, abracei o baby e cobri-o de beijos, enquanto disfarçadamente lhe fazia um apressado exame neurológico.

No meio destas semanas todas fui assobiando para o ar e fazendo vida normal. O problema é que enquanto se assobia para o ar, o pé fragilizado torce mais cinquenta vezes. Por isso, em vez de melhorar fui sempre piorando, até que ontem, no Badoca Park, onde fiz questão de ir em mais um exercício africano (o baby há de querer ir comigo na minha próxima missão a Moçambique, ou eu não me chame beijo-de-mulata!), torci o pé de vez enquanto andava num caminho tipo picada africana com o baby ao colo, tentando chamar-lhe a atenção para o divertido comportamento dos macacos mais jovens

Por fim, hoje lá me tive de render à evidência. E às canadianas. E ao gelo, ao Voltaren e ao Brufen de 8/8 horas certinho.

Há pouco, D. baby-de-mulata, já deitado para a sesta, perguntou-me se podíamos ir a um concerto depois da sesta.
- Oh, filho, vai ser difícil, que a mãe mal consegue andar.
- Mas eu vou, pronto! Posso ir sozinho! E tu, se quiseres, pegas nessas cruzetas* e vais comigo!
- Quais cruzetas, baby?
- Essas... coisas... - apontando para as canadianas.
- Ah, vou de canadianas, está bem, combinado!

Três anos e já ameaça que deixa a senhora sua mãe literalmente pendurada! Isto promete!

*Cabides, no dizer do povo da Beira Alta, terra da senhora minha mãe, que cuida do baby na minha ausência.
08
Set14

[outras palavras] breve história de um desnutrido

beijo de mulata
Mais uma crónica da minha amiga Maria, voluntária pela minha ONG no Niassa, a província mais longínqua e abandonada de Moçambique. Tudo quanto ela escreve me faz vir à mente sons e cheiros longínquos. E só não me faz chorar porque agora tenho várias razões fortes e lindas para permanecer aqui e não fugir mais uma vez para essa terra miraculosa e cheia de vida!

 
O Bento, o menino protagonista desta história...
Mitande, Niassa


"Recordo a primeira vez que ouvi o Bento. Era de manhãzinha, aproximava-me da maternidade para iniciar mais um dia de trabalho quando ouvi um choro demasiado alto para ser o primeiro grito de um ser humano, demasiado sofrido também.
Não me enganei. Tratava-se de uma criança, dos seus 18 meses, que encarnava o dito popular “deve à pele a obrigação de lhe segurar os ossos”. A avó, sua cuidadora, a acrescentar a um discurso nada coerente, sofria de disfemia [gaguez], o que tornava o cenário no mínimo bizarro. Conseguimos convencê-la com muito custo que era mais importante internar a criança no Centro Nutricional do que afastar os macacos que teimavam em roubar-lhe a maçaroca: a sua principal preocupação naquele momento.

O Bento, que tivera a (in)felicidade de ter uma irmãzinha, agora de 5 meses, que lhe tirara cedo de mais o leite e o amor materno, surpreendeu logo nos primeiros dias de internamento por aliar uma teimosia deliciosa a uma inteligência incomum. Sabia perfeitamente qual era a colher em que estavam os medicamentos e não ingeria nada que a avó não colocasse primeiro na boca. O medo que demonstrava antes de provar qualquer alimento levou-me a suspeitar de longos tratamentos tradicionais impalatáveis. Exigia o seu espaço de mais de um metro e meio de raio, impenetrável para alguém que não fosse a avó, espaço este que consegui aos poucos diminuir seguindo à letra os conselhos que a raposa ensinou ao Principezinho na fantástica obra de Saint Exupéry: “É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas--te um bocadinho afastado de mim, assim, na [esteira]. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto….”

Cada dia me sentei mais perto e ao final de um mês tinha-o cativado. Bastava alguém dizer “a Fátima vem lá” para ele colocar um sorriso de orelha a orelha e espreitar… é certo que não fui só eu que o cativei, mas sobretudo as papas deliciosas com sabor a amendoim que lhe preparava.

 Hoje, após 10 semanas de tratamento, teve alta… saiu já ao entardecer, às costas da mãe. No lusco-fusco de um anoitecer colorido, dava gargalhadas ruidosas, brincando ao txipi-txipi (esconde-esconde) na capulana da mãe.

 O Bento foi, mas o trabalho continua, e agora devo dar toda a atenção à Vitória, uma bebé adorável cuja cara desnutrida se resume a uns grandes olhos negros e um sorriso desdentado de orelha a orelha, com peso aos 8 meses inferior ao meu peso de nascimento, consequência de falta de produção de leite materno tardiamente identificada. Há crianças que não podiam ter nomes mais adequados…
Em meu nome, por me permitirem ser agente ativa nestes milagres diários, em nome do Bento, da Vitória e de todas as “Vitórias” de África que sobrevivem graças às ajudas generosas dos benfeitores da APARF, deixo uma mensagem de sinceros agradecimentos e termino parafraseando Raoul Follereau “não sabe o bem que faz quem faz o bem.”

Obrigada, eu, Maria, por me trazeres, a cada crónica, mais um pouco do cheiro de África!
31
Mai14

[outras palavras] voluntariado em moçambique

beijo de mulata
 
Os adoráveis gémeos da Maria!
(Mitande, Niassa)
 
Já vos falei dela: a minha amiga Maria, enfermeira de formação e coração (e, se Deus quiser, quando regressar, também o será de profissão), que está há quase 18 meses em Mitande, uma terra mágica, na província mais longínqua e abandonada de Moçambique. Mulher de sete ofícios: médica, enfermeira, parteira, confidente, mecenas, psicóloga, personal coacher, orientadora vocacional. Há dias escreveu assim na sua página do face:
 
Já foram internados há quase um mês… como é possível ainda não ter escrito nada sobre os meninos dos meus olhos?, um casal de gémeos adoráveis, que conheci em Dezembro… na altura gordinhos, apenas era necessário um reforço na alimentação materna – afinal encontrávamo-nos na época da fome e eram duas crianças amamentadas por uma só mãe. Depois de três vindas ao nosso Centro de Recuperação Nutricional, a mãe não voltou mais…

Voltou agora, muito magra, com os pequenos a pesarem menos que em Dezembro. Pedia desculpas por não ter voltado, adoecera gravemente e “desconseguira” chegar na data marcada… tentara vir depois, mas as chuvas intensas elevaram o rio Lugenda [rico em fauna exótica – cobras, crocodilos, hipopótamos] acima da ponte, pelo que se resignou. Tornou a adoecer e só agora conseguira chegar.
 
Num desses períodos de pouca saúde, descreve que terá tido uma mastite, que lhe “secou” a mama direita. Então, era ver duas crianças-pele-e-osso, famintas, lutando por uma única mama que, de tão sugada, não é agora mais que um pedaço de tecido flácido.

 Agora, já em recuperação – ela mais gordinha que ele, fruto da sua resistência a esses alimentos artificiais ricos em nutrientes [particularmente o maravilhoso pumply'nut - a maravilha da ciência, inpirada em Nutella], vão-me fazendo as delícias das minhas manhãs com os seus sorrisos marotos e caprichos típicos de crianças famintas…

Quem ousa dizer que não são uma delícia estes dois anjinhos?
E eu quase chorei de saudades desse povo que me ficou no coração... Quase me dói o peito. Não me julguem mal, adoro a vida que tenho agora. O preço a pagar por ter adotado o meu baby-de-mulata - não mais voltar a Moçambique -, pagá-lo-ia dez vezes mais, mas a saudade fica a pulsar dentro do peito de cada vez que vejo estes sorrisos envoltos em capulanas.

A minha esperança é que o baby queira ir comigo um dia quando voltar!
15
Out13

[alvíssaras!] não temais, que veio o halakavuma!

beijo de mulata
 
Um pacato pangolim comendo as suas formigas, sob o olhar atento e esperançoso dos habitantes da vila, durante a cerimónia pública de invocação de espíritos.
(Murrupula, Nampula)

Para quem não o conhece, o halakavuma - pangolim, em Português corrente - é um mamífero que vive em zonas tropicais da Ásia e da África que, segundo a tradição macua (a etnia que habita o norte de Moçambique), traz boa sorte e boas notícias. As suas escamas são igualmente traficadas para serem utilizadas como afrodisíacos. O seu aparecimento em Murrupula foi notícia no Notícias de Moçambique:
A vila sede do distrito de Murrupula, em Nampula,esteve ontem parcialmente paralisada para participar da cerimónia pública deinvocação dos espíritos pelo aparecimento de um pangolim, mamífero consideradoraro e cuja aparição é considerado na mitologia dos povos macuas daquelaregião, como sendo presságio de boa campanha de produção agrícola, entre outrasdádivas.
 “Conformemandam as tradições, tivemos que trazer o animal imediatamente para sede dodistrito para o conhecimento das autoridades, depois que se seguirá outrostipos de rituais, antes de o animal ser devolvido para o mato”- explicou Wala.
Pronto, meus amigos, não se preocupem mais. Nada há a temer, que já veio o halakavuma!
09
Out13

[cantar para as crianças] parentalidade em moçambique

beijo de mulata
 
Um menino depois de recuperar um pouco da desnutrição.
(Iapala, Nampula)

Ainda sobre a história do Dino... (Vá lá, está ali dois posts abaixo, não sejam preguiçosos, é mesmo preciso pôr o link? Enfim, mas já está posto, que há sempre alguém que reclama e eu sou mais que vossa mãe. Assim como assim, quem faz tudo nesta casa sou eu...)

Agora que vos contei a história, lembro-me melhor daquela mãe e dos gritos inconsoláveis daquele menino. É curiosa a tolerância que a mãe desenvolveu para com os guinchos que pareciam incomodar toda a gente menos a ela. Curiosa para dizer o mínimo. Quase tenebrosa, agora que penso nisso. A minha convicção profunda é que não nos devemos acomodar ao choro das crianças. Devemos evitá-lo ou fazê-lo parar. Ou tomar uma atitude. Não fingir que não ouvimos. Ou pior: não ouvir mesmo.

Uma vez, quando já vinha recuperando peso há algum tempo e já nos parecia mais neste mundo, durante uma birra em que ele chorava particularmente alto, perguntei à mãe o que fazia para o consolar, ao que ela me respondeu: "Nada, ele não para de chorar com nada." "Mas como é que ele reage se lhe contar uma história ou se cantar para ele?" "Não sei, nunca cantei...", foi a resposta que acho que eliminei da minha mente até agora. Ela parecia que estava a ouvir um extraterrestre. Que coisa mais nonsense! Era como se eu lhe estivesse a perguntar se o menino reagia bem às equações de segundo grau ou se gostava de funções logarítmicas. Então o menino ainda quase nem falava, como raio haveria de perceber uma história ou aprender uma canção?

"Mas então, ninguém canta para os filhos?", perguntei às mães da enfermaria. Algumas, poucas, cantavam. Quase nenhumas. Mas... mas... como faziam para acalmar os meninos? "Ora, doutora, pomos os meninos no colo [às costas na capulana] e eles calam!"

Na altura não me ocorreu que a geração que atualmente é mãe e pai das crianças de Moçambique é a geração de cresceu durante a guerra civil. É uma geração que não tem memória de ser consolada quando chorava. E não tem memória por uma razão simples: não o era. Ouvi os relatos de muita gente de todas as vezes que fui a Moçambique. Muitas pessoas não querem falar sobre os anos negros da guerra. Mas algumas falam, precisam de falar, e as recordações são completamente sobreponíveis.

As memórias de infância de quem cresceu no mato são de fome, terror e abandono. São de não se poder dormir dentro de casa sob um teto, por mais humilde que fosse. São as recordações de os irmãos mais velhos lhes taparem a boca quando choravam, para não serem ouvidos no escuro. São de dormir ao relento, à chuva e ao frio, cheios de medo de serem atacados pelos "bandidos armados". São as memórias da frase mais proferida: "Chiu! Está no mato! Não sabe que não pode chorar?" São as memórias dos escorpiões e das cobras venenosas que muitas vezes se aninhavam debaixo das esteiras das famílias, procurando o calor humano durante a noite. E o horror que era, de manhã, descobrir que tinham partilhado o leito com seres repelentes e perigosos, alguns mortíferos. Felizmente quase nunca mordiam. Parecia que os humanos nessa altura faziam parte da paisagem e não os incomodavam.

Recordo o quanto me chocou que as mães não tivessem as mais parcas noções de puericultura. Expliquei que era muito importante estimular as crianças, interagir com elas, falar para elas, brincar. Não sabiam disso? Muitas não sabiam.

Podem dizer, meus amigos, que não é preciso. Que as crianças ensinam os pais a serem pais. O meu baby-de-mulata, por exemplo, ensina-me todos os dias. Exige músicas, danças, inventa diálogos estapafúrdios, brinca com as palavras. Diz-me aquilo que gosta, exige que brinque, provoca-me, não me deixa afastar-me. Mas o meu baby é um menino fácil. É daqueles que está quase sempre bem-disposto, daqueles que quando não se levanta a rir e a cantar já sabemos que lá vem doença da grossa, daqueles que quase podemos dizer que se criaria sozinho com a mãe menos apta e mais básica, desde que minimamente sensível.

Mas o que dizer dos meninos difíceis? Dos que choram a toda a hora e só apetece que estejam calados um minuto? Que dizer dos que demoram a aquecer e que temos de nos esforçar muito para que interajam? Dos que parecem estar sempre só mais ou menos, nem carne nem peixe, e que aparentam ficar bem se não tiverem ninguém com eles? Para esses, que são largamente mais de metade, é preciso algumas noções de puericultura. E disponibilidade. E esforço! São estes que se deprimem. São estes que as mães deixam de ouvir chorar porque estão sempre a gritar. Ou então são os que não choram. Em suma, são estes que se deixam abandonar. São estes que se deixam desnutrir. E portanto são estas mães que temos de formar! E temos de cuidar destes meninos!

Cada vez mais me convenço que a fome e desnutrição é um problema muito mais abrangente e que não passa só por haver ou não haver comida. E que o desenvolvimento de um país só pode acontecer quando as crianças forem bem tratadas. Quantas gerações serão precisas mais para criar bem uma criança?

Por isso acredito cada vez mais nos projetos das Irmãs que conheço, que criaram jardins infantis, que são portos de abrigo para crianças de famílias analfabetas, crianças com falta de estímulo, crianças com doenças e desnutrição, inseridas em meios culturais pobres. Só pode ser este o caminho!
07
Out13

[outras palavras] começa a fome no niassa...

beijo de mulata


A minha amiga Maria, voluntária no Niassa através da minha ONG ("minha", salvo seja, da ONG que sempre me apoiou, de cuja assembleia agora sou presidente e por quem cultivo uma dívida de gratidão) postou hoje no facebook a seguinte mensagem: 
Hoje até podia falar da fome que as pessoas começam a sentir nesta época do ano por aqui, ou descrever as crianças que me têm chegado ao Centro nutricional e tentar capturar fotos dignas de Carter, mas como estou consciente dos motivos que o levaram ao suicídio, prefiro apreciar a chuva e deixar uma música ambiente adequada para a abençoar.
Deixaste-me gelada... É verdade, minha querida, eu sei, há dias em missão que nos enchem a alma de imagens horríveis, cenários que nos paralisam e nos tentam fazer baixar os ombros. É verdade isso que contas. Talvez Carter se tenha deixado invadir por esse horror até não sobrar, por entre névoas e desaires, a memória de um sorriso.

Sei bem do que falas. Não pretendo ensinar-te nada, que já tens um ano de experiência em desnutrição mas, ainda assim, vou contar-te como foi que percebi a razão de "marasmo" ser precisamente uma expressão que usamos para denotar depressão e apatia. "Gostava de sair deste marasmo", dizem as pessoas quando a sensação de abandono se torna avassaladora e não lhes apetece fazer nada daquilo que em tempos lhes dava prazer. Compreendi isso com uma criança desnutrida que me marcou para sempre.

Essa criança de quem te falo era o Dino, um menino de três anos, internado em Iapala em Abril de 2008, uma semana antes da minha terceira chegada à missão. Estava coberto de feridas nos membros e no tronco, como se a pele tivesse descamado em toda a sua profundidade, mas o que mais me chocava era a forma como se debatia enquanto a mãe lhe enfiava, sem dó nem piedade, com uma colher, a solução de reabilitação nutricional pela goela abaixo. Gritava, guinchava de boca fechada para que a maldita colher não lhe violentasse a nula vontade de comer. Mas em vão. A mãe agarrava-o e tapava-lhe o nariz. Quando abria a boca para respirar, uma nesguinha que fosse, lá vinha o líquido horrendo que, em vez de o fazer voltar à vida, quase o sufocava, ao entrar pelo mesmo orifício que o ar que lhe faltava. Todo ele escorria suor e solução nutricional. Quase me faltava o ar a mim também. Ao seu lado, porém, as outras mães de crianças desnutridas davam a mesma solução aos seus filhos, também sob alguns protestos, mas de longe mais suaves que os do Dino. Por fim, um vómito vinha pôr termo àquela reabilitação nutricional forçada. Para recomeçar pontualmente três horas depois, com uma mãe cada vez mais desesperada, mas igualmente obstinada.

A partir de um certo grau de desnutrição quase todas as crianças resistem a comer, é certo, sobretudo quando se lhes apresenta uma solução desenxabida e à base de leite de vaca, como é a solução nutricional da Unicef (não tenho nada contra o leite de vaca, entendam-me, mas a maioria das crianças africanas tem intolerância à lactose, o que lhes provoca dor e distensão abdominal; e isso, convenhamos, não ajuda nada nestas circunstâncias), mas aquela criança, ainda que ao lado de outras mais desnutridas, fazia impressão. Não sei se metia dó, se metia raiva, se me fazia sentir zangada ou só terrivelmente desconfortável. Passava-se certamente mais alguma coisa. Uma obstrução intestinal? Uma alergia às proteínas do leite de vaca? O que o fizera ficar desnutrido em primeira instância?

A minha amiga Fátima, que tinha ido comigo nessa missão, dizia-me: "Não vês que é ele que está a puxar o vómito? O miúdo é difícil e a mãe não parece muito adequada." Mas para mim difícil era acreditar que todo aquele aparato era puramente comportamental. Será que era uma reação à imposição da alimentação de uma forma tão coerciva? Resistir, fechar a boca e puxar o vómito eram o único espaço de liberdade que restava àquela criança, presa no excesso de zelo de uma mãe desesperada.

Mas a verdade é que todos os dias o Dino perdia peso e não dava qualquer sinal de ter fome ou querer comer. Tentámos de tudo. Distraí-lo com vídeos no iPhone, com canções, com danças, tentámos brincar, chamá-lo à razão, pedir, ameaçar. Por fim, acabávamos por lhe colocar uma sonda nasogástrica... e ele vomitava. Por vezes, quando conseguia que olhasse para mim, fazia-lhe a minha cara furibunda nº 5 e ele parava. Aí não puxava o vómito. Mas por vezes vomitar parecia inevitável. O miúdo era, de facto, difícil. Ou pior. Se calhar não queria mesmo viver... Mas logo me emendava: não, não, não podia ser! Que ideia ridícula. Alguma coisa se passava, de certeza!

A história que a mãe contava, num Português muito acima da média para os habitantes de Iapala (mas que ainda assim não ia além de um sofrível), era que o menino nascera bem e se alimentara exclusivamente de leite materno até aos 8 meses. No mato em Moçambique é habitual o aleitamento materno exclusivo até aos 12 meses, portanto não ter ingerido rigorosamente nada para além de leite materno até aos 8 meses era perfeitamente normal.

Mas a mãe continuava: a introdução de novos alimentos é que tinha sido dramática. Aos 8 meses, quando introduzira a colher, o Dino passara a recusar o leite materno, deixando a mãe com uma mastite terrível. E se ao princípio ainda aceitara razoavelmente o milho, a carne e o feijão, meses depois (não sabia precisar quantos) passara a recusar terminantemente qualquer alimento sólido. Deixara de aumentar de peso. Pouco a pouco tornara-se numa criança irritável, alheada do mundo e das pessoas, deixara de dizer "mamã", deixara de ter interesse em brincar, nem a mãe olhava de frente. Respondia a qualquer tentativa de aproximação de outra pessoa, nem que fosse a avó, com guinchos estridentes. Uma regressão maciça do desenvolvimento.

Acontecera alguma coisa nessa altura?, indagava eu, assombrada com tanto sofrimento no olhar de uma mãe. Não, só o pai tinha partido em trabalho para Nampula, mas não acreditava que fosse isso, o menino nunca fora muito ligado ao pai. E a mãe? Teria ficado triste com a partida do pai?, ocorriam-me histórias de crianças a quem a depressão materna deixara profundas marcas no desenvolvimento. Mas também não fora o caso. Até tinha sido um alívio, confessava-me, porque ele em Iapala não tinha trabalho e estavam a passar dificuldades. Nesse aspeto tudo tinha melhorado...

Pelos dois anos, a única coisa mais ou menos sólida que a mãe o conseguia fazer comer já era apenas papa de milho. Nos dias bons conseguia também fazê-lo comer feijão. Mas sempre sob fortes protestos, praticamente à força. Só comia bem a dormir, mas era difícil porque tinha o sono leve e acordava facilmente.

Até que, aos três anos, tivera uma doença. No hospital disseram que era malária e trataram-no como tal, mas o menino nunca mais se recompusera. Fora acometido de uma diarreia febril que demorou a passar e o fizera perder peso e ânimo. Deixara de andar. A pele caía-lhe, grossa e descamativa, os cabelos tornavam-se descolorados, cor de palha e, outrora rebeldes e encrespados, desfrisavam-se e caiam em catadupa.

Raios! Como é que se chega a este ponto, meu Deus? A mãe pensava o mesmo. Percorrera todos os hospitais das redondezas, não sem antes ter recorrido aos melhores curandeiros. Até que, no hospital, o Sr. Sousa, colega do marido, a convencera a ficar e tentar o programa de reabilitação nutricional. "Não existe outra solução", dissera-lhe. E ela, sem alternativa, ficara.

Mas o que viera primeiro?, perguntávamos. A regressão do desenvolvimento ou a recusa em alimentar-se? Seria uma perturbação do espetro do autismo? Seria uma questão psicológica, assim uma anorexia nervosa infantil, que infelizmente também as há? Seria uma doença intestinal que o fizera sentir-se desconfortável com a comida? Um molho de brócolos, era o que era aquele menino!

Os dias passavam e, com a sonda nasogástrica, os antibióticos e as vitaminas, o menino lá ia aumentando de peso. Quase nada que se visse, mas enfim, pelo menos já não perdia. E havia vezes em que já não vomitava.

Até que uma manhã, na fila para pesar, o Dino, ao colo da mãe, não chorava como de costume. Eu via água a escorrer pelo vestido da mãe, mas como ele era dos últimos da fila e eu estava concentrada em tomar nota dos pesos, pensei que o menino se entretinha com alguma garrafa de água e até me alegrei. Estava mais calmo! Quando chegou a vez dele, quase uma hora depois, percebi, horrorizada, que estava pálido, desidratado, quase em choque. Perdera dois quilos. A gastroenterite que grassava no hospital pela falta de saneamento básico e por as fontes de abastecimento de água estarem contaminadas, tinha-o atingido. Fizéramos todos os possíveis para evitar que a epidemia chegasse à enfermaria das crianças. Aconselháramos toda a gente a ir buscar água a um fontanário que não estava contaminado e a dar unicamente água fervida. A solução nutricional tinha de ser preparada pelos enfermeiros com água tratada. Mas em vão. Quando o saneamento é deficiente é difícil travar as epidemias.

Transferimo-lo para a enfermaria de adultos porque naquele estado não podia estar junto com as outras crianças fragilizadas pela desnutrição. Ainda tentámos colocar-lhe um acesso venoso, mas com ele tão desidratado foi impossível. Até aí, na ingenuidade de quem nunca viveu estes dramas, eu pensava que uma criança desidratada e com sede nunca recusaria água. Ou soro oral. Pensava que uma desidratação daquelas só poderia provocar uma avidez por líquidos. Mas o Dino também não abriu a boca para o soro. Nunca recusara água, mas agora recusava rigorosamente tudo, incluindo água e soro.

Na nova enfermaria, as mulheres doentes olhavam-nos, abanando a cabeça: "Tudo tem limite, Doutoras! Já lá vão quantos dias? Não veem que esta criança não quer viver? Para quê tanto sofrimento? Tenham respeito pela mãe e pelo filho!" E, de facto, o olhar da mãe era de quem tinha desistido. Colocámos-lhe novamente uma sonda nasogástrica para o hidratar, mas a mãe nem sequer o segurou para nos ajudar. Deitou-se na cama do filho e adormeceu. Tinha chegado ao seu limite, aquela já não era a sua luta. Mas... oh, meu Deus! O peso daquela luta era enorme... Seria lícito continuar a fazer sofrer uma criança que já tinha sofrido tanto e que claramente tinha desistido? Foi uma noite difícil, com tantas dúvidas nossas, com tantos olhares reprovadores, com o olhar de abandono do menino, que não vomitava mas também não reagia a nada.

(continua, que o post vai enormíssimo)
06
Out13

[outras palavras] a luz

beijo de mulata
 
O Padre João Torres batizando uma mulher adulta.
(Ocua, Cabo Delgado)
 
Li hoje na sua página pessoal:
Todos experimentaremos, cedo ou tarde, o momento em que a nossa fé perde o pé, não tem apoio, nem garantia, nem sinal nem prova. É, pura e simplesmente, ato de confiança inquebrantável na beleza e na ternura de Deus, graça que nos faz viver e esperar, com paciência, o tempo mastigado com fios de felicidade... Como nos diz o Papa Francisco, “a fé não é luz, que dissipe todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho.”
Também é esta a minha fé e a minha esperança. A vida tem de ser simples.
05
Set13

[à beira do rio molócuè] anoitecer...

beijo de mulata
 
Uma mamã com o filho às costas tenta recuperar o seu precioso bidão de água que se lhe escapou no rio... Apesar de já existirem fontanários de água potável no Gilé, essa água é cara e as pessoas não se conseguem dar ao luxo de a utilizar para outros fins que não para beber. A água para cozinhar (que vai ser fervida), para lavar a roupa e tomar banho vem toda do rio... um rio onde eu não entraria sequer para molhar os pés porque, para além do perigo dos crocodilos, está infestado de doenças. A vida nem sempre é simples na Zambézia...
(Gilé, Zambézia)
31
Ago13

[welcome to mozambique] inseticida...

beijo de mulata
A pedido de ainda mais famílias, aqui fica mais um pequeno excerto do meu livro:

Deixo-me ficar na cama ainda mais uns minutosdepois do alarme do telemóvel tocar. Recordo-me desta noite... Ainda nemacredito que recebi um recém-nascido em Moçambique, à luz das velas, como nasmais antigas histórias que ouvia contar! (…)
Cumprimento a Amélia, a minha discretacompanheira de quarto, uma osga simpática e madrugadora, que a esta hora já seencontra colada aos vidros da janela ao sol (desconfio que terá passado ali anoite...), com as patinhas esticadas numa enorme preguiça, à espera do pequeno-almoçoesvoaçante (este sim, literalmente um “mata-bicho”). Instalou-se no meu quartohá três dias, trazida pelo cozinheiro ante o meu olhar de ponto deinterrogação. Eu tinha-lhe pedido inseticida pois não tinha rede mosquiteira noquarto, ao que ele respondera:

– Não sei o que é set'cida, doutora...
– Remédio para os mosquitos –reformulei.

– Ah, não tem problema!
E horas depois regressou com a Amélia...A verdade é que esta minha inquilina é uma exímia caçadora de mosquitas,mosquitos e moscas e ainda não precisei de usar inseticida.

in A Missão - Diário de uma Médica em Moçambique

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