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Beijo de Mulata

Beijo de Mulata

09
Set14

[grande é a poesia, a bondade e as danças] planos e futuros!

beijo de mulata
O baby-de-mulata, como bom portador de um cromossoma Y com todas as pernas, braços, bandas e sarabandas, quer ser professor de polícias ou professor de carros e de ambulâncias (professor da parte de Mr.-Shaka-seu-querido-paizinho, e polícia e condutor de ambulâncias da parte dele próprio, que sua mãe queria mesmo era ser bailarina nesta idade).

Mas eu, que sou uma mãe liberal e com abertura de espírito, adoro dizer-lhe no tom impagável de Raul-Solnado-no-seu-melhor: "Filho, quer tu queiras quer não queiras, tens de ser bombeiro voluntário!" A cara compenetrada e feliz que ele faz quando ouve esta frase é de morrer a rir. Queira Deus que só descubra o paradoxo daqui a uns tempos largos...


08
Set14

[outras palavras] breve história de um desnutrido

beijo de mulata
Mais uma crónica da minha amiga Maria, voluntária pela minha ONG no Niassa, a província mais longínqua e abandonada de Moçambique. Tudo quanto ela escreve me faz vir à mente sons e cheiros longínquos. E só não me faz chorar porque agora tenho várias razões fortes e lindas para permanecer aqui e não fugir mais uma vez para essa terra miraculosa e cheia de vida!

 
O Bento, o menino protagonista desta história...
Mitande, Niassa


"Recordo a primeira vez que ouvi o Bento. Era de manhãzinha, aproximava-me da maternidade para iniciar mais um dia de trabalho quando ouvi um choro demasiado alto para ser o primeiro grito de um ser humano, demasiado sofrido também.
Não me enganei. Tratava-se de uma criança, dos seus 18 meses, que encarnava o dito popular “deve à pele a obrigação de lhe segurar os ossos”. A avó, sua cuidadora, a acrescentar a um discurso nada coerente, sofria de disfemia [gaguez], o que tornava o cenário no mínimo bizarro. Conseguimos convencê-la com muito custo que era mais importante internar a criança no Centro Nutricional do que afastar os macacos que teimavam em roubar-lhe a maçaroca: a sua principal preocupação naquele momento.

O Bento, que tivera a (in)felicidade de ter uma irmãzinha, agora de 5 meses, que lhe tirara cedo de mais o leite e o amor materno, surpreendeu logo nos primeiros dias de internamento por aliar uma teimosia deliciosa a uma inteligência incomum. Sabia perfeitamente qual era a colher em que estavam os medicamentos e não ingeria nada que a avó não colocasse primeiro na boca. O medo que demonstrava antes de provar qualquer alimento levou-me a suspeitar de longos tratamentos tradicionais impalatáveis. Exigia o seu espaço de mais de um metro e meio de raio, impenetrável para alguém que não fosse a avó, espaço este que consegui aos poucos diminuir seguindo à letra os conselhos que a raposa ensinou ao Principezinho na fantástica obra de Saint Exupéry: “É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas--te um bocadinho afastado de mim, assim, na [esteira]. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto….”

Cada dia me sentei mais perto e ao final de um mês tinha-o cativado. Bastava alguém dizer “a Fátima vem lá” para ele colocar um sorriso de orelha a orelha e espreitar… é certo que não fui só eu que o cativei, mas sobretudo as papas deliciosas com sabor a amendoim que lhe preparava.

 Hoje, após 10 semanas de tratamento, teve alta… saiu já ao entardecer, às costas da mãe. No lusco-fusco de um anoitecer colorido, dava gargalhadas ruidosas, brincando ao txipi-txipi (esconde-esconde) na capulana da mãe.

 O Bento foi, mas o trabalho continua, e agora devo dar toda a atenção à Vitória, uma bebé adorável cuja cara desnutrida se resume a uns grandes olhos negros e um sorriso desdentado de orelha a orelha, com peso aos 8 meses inferior ao meu peso de nascimento, consequência de falta de produção de leite materno tardiamente identificada. Há crianças que não podiam ter nomes mais adequados…
Em meu nome, por me permitirem ser agente ativa nestes milagres diários, em nome do Bento, da Vitória e de todas as “Vitórias” de África que sobrevivem graças às ajudas generosas dos benfeitores da APARF, deixo uma mensagem de sinceros agradecimentos e termino parafraseando Raoul Follereau “não sabe o bem que faz quem faz o bem.”

Obrigada, eu, Maria, por me trazeres, a cada crónica, mais um pouco do cheiro de África!
22
Jan14

[outras palavras] somos nós...

beijo de mulata
Acabei de ler isto. Fiquei arrepiada...


"Sou médica interna. Sou médica daquelas que demoram muito. Não entupo urgências, porque não trabalho lá, mas deve estar muita gente à minha espera, na sala onde se espera. De certeza que pensam que sou “estagiária”. Não tenho carro, vivo numa casa alugada, pago as contas (às vezes em atraso). Trabalho, estudo, vivo em constante preocupação porque tenho que estudar mais, tenho de fazer relatórios e posters e apresentações. Vivo entre exames, artigos científicos e isso sim, trabalho, muito trabalho. Ao meu lado estão outros médicos internos. Raramente adoecem.. estão lá, ganham o mesmo que eu. Estou motivada, mas menos motivada, estou lá, mas às vezes penso que devia estar noutro sítio. Às vezes chego ao fim do mês à justa. No talão diz 1800… acho…, mas chega bastante menos à conta na CGD. Não sou especialmente ambiciosa. Nem especialmente poupadora nem gastadora. Compro roupa na Zara e móveis no IKEA (dos baratos). Tenho o apartamento alugado meio vazio, mas não faz mal porque passo lá pouco tempo. Tenho uma secretária de 1,50m de largura no trabalho, que está sempre muito cheia. Tenho o novo corretor ortográfico no computador, mas irrita-me. Vou à pagina da Ryanair quando estou pensar em férias. Mas cada vez penso menos. Não tenho animais de estimação, mas gosto de animais de estimação. De manhã acordo mais tarde do que devia, mas chego a horas ao trabalho. Vou a pé, porque vivo na baixa (isso deve ser um luxo). Estou inscrita num ginásio ao qual raramente consigo ir. Cada vez que abro o facebook vejo salários de políticos aos quais não sei atribuir significado. Depois vejo salários de médicos que não conheço. Às vezes leio os comentários das pessoas revoltadas com o que ganham os médicos, com o bem que vivem. Eu devo ser da classe privilegiada, porque sou médica. Não tenho carro, não tenho casa própria, não tenho um iphone, porque me parece excessivamente caro. Ganho 1200 euros. Tenho 30 anos. Matei-me a estudar na faculdade, tenho o trabalho em dia, mas não sou lá muito inteligente porque me esqueci de pagar a conta da EDP. Na sexta-feira cheguei às 21:00 a casa (devia ter saído às 18:00) e tinham-me cortado a luz. Tenho de me organizar melhor. Na televisão não falam dos sacrifícios, não dizem que fiquei horas a mais a fazer o trabalho que estava a menos, porque sou lenta talvez… Deve ser isso. Não fui para a night porque estava esgotada. Dormir é uma das minhas grandes prioridades. Não vou muito ao cinema, nem vou aos eventos culturais de que gostaria. Não viajo muito, nem vou jantar a restaurantes caros. Sou médica… é verdade. Médica interna, jovem inexperiente. Daqueles que entopem urgências e custam muito dinheiro ao estado porque estão em formação… Deve ser melhor para os recém-assistentes que estão à espera do contrato para a semana há um ano… Ao longo do internato que vejo passar… só vejo as coisas piorar. Mas estou muito motivada, amanhã vou trabalhar."
10
Nov13

[outras palavras] memórias de um átomo

beijo de mulata
O Livro do Ega! Fora em Coimbra, nos dois últimosanos, que ele começara a falar do seu livro, contando o plano, soltando títulosde capítulos, citando pelos cafés frases de grande sonoridade. E entre osamigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela forma epela ideia, uma evolução literária. Em Lisboa (onde ele vinha passar as feriase dava ceias no Silva) o livro fora anunciado como um acontecimento. Bacharéis,contemporâneos ou seus condiscípulos, tinham levado de Coimbra, espalhado pelasprovíncias e pelas ilhas a fama do livro do Ega. Já de qualquer modo essa notíciachegara ao Brasil... E sentindo esta ansiosa expectativa em torno do seu livro- o Ega decidira-se enfim a escrevê-lo.

in Os Maias, de Eça de Queiroz

Tenho um livro por escrever... De cada vez que alguém me pergunta por ele, lembro-me sempre do Átomo do Ega. Já tenho ilustradora, compradores potenciais, editora e local de lançamento... Só ainda não o escrevi. Alguém consegue imaginar pior desgraça?
15
Out13

[outras palavras] portugal vs angola

beijo de mulata
 Diz a Bad Girl que vai a todo o lado:
Para mim ler "Angola anuncia fim de parceria estratégia com Portugal" é o mesmo que ler "Fanny termina relação amorosa com Hugh Jackman". 
Mais uma vez, deve ser das drogas.
Não faço a menor ideia de quem seja o Hugh Jackman ou sequer que tenha qualquer coisa a ver com a incontornável Fanny (que até eu conheço), mas é mesmo isto!
13
Out13

[outras palavras] não mais me queixarei dos roncadores

beijo de mulata

Eu sempre me queixei que os maiores roncadores do mundo tendiam a sentar-se ao meu lado nos aviões. Sobretudo nas viagens que fazia mais cansada e a precisar de dormir. E nas de longo curso. Agora que penso melhor, era sobretudo nessas. E quanto mais longa a viagem, pior o síndrome de Pickwick: mesmo que eu tentasse distraí-los e mantê-los acordados em conversa, adormeciam pelos cantos, no intervalo entre duas frases. E lá recomeçava o pesadelo...

Acho que a minha atração magnética sobre os grande roncadores da humanidade atingiu o seu zénite numa viagem de 14 horas para o outro lado do mundo, onde tinha de um lado uma amiga que dormiu o tempo todo e nem na aterragem conseguiu acordar e, do outro, o maior ressonador que já vi ao vivo (e olhem que conheço muitos ortopedistas!). Cheguei a pensar em fazer um apelo geral por um aparelho de CPAP a bordo. Ou uma aterragem de emergência. A sério, o senhor fazia apneias de meia noite e cheguei a temer pela vida dele, sobretudo numa apneia prolongadíssima que terminou num ronco que quase me matou a mim do coração. Por fim cheguei a temer pela minha sanidade mental. Os comissários de bordo tentaram oferecer-me, por diversas vezes, tampões para os ouvidos, mas a vibração, assim, a seco, sem banda sonora, era ainda mais aflitiva. A mulher dele tinha, mui inteligentemente dado de frosques e encontrava-se a uma distância prudente, mais de quinze lugares atrás, mas eu reconheci-a por ser a única pessoa que passou por mim tentando fingir que ignorava o senhor e que não me lançou um olhar de compaixão. Ah, e que usava um par de tampões de silicone nos ouvidos.

Mas mal o apanhei acordado, só saiu de lá com a ameaça de que teria de ir ao médico quando regressasse de férias, que eu era menina para fazer uma denúncia pública e nunca mais o deixar viajar de avião, a bem da pureza sonora da atmosfera a bordo e da sua própria saúde.

Mas hoje rendi-me. Há uma pessoa mais azarada do que eu, valha-me Nossa Senhora do Ar! Não volto a queixar-me.
07
Out13

[outras palavras] começa a fome no niassa...

beijo de mulata


A minha amiga Maria, voluntária no Niassa através da minha ONG ("minha", salvo seja, da ONG que sempre me apoiou, de cuja assembleia agora sou presidente e por quem cultivo uma dívida de gratidão) postou hoje no facebook a seguinte mensagem: 
Hoje até podia falar da fome que as pessoas começam a sentir nesta época do ano por aqui, ou descrever as crianças que me têm chegado ao Centro nutricional e tentar capturar fotos dignas de Carter, mas como estou consciente dos motivos que o levaram ao suicídio, prefiro apreciar a chuva e deixar uma música ambiente adequada para a abençoar.
Deixaste-me gelada... É verdade, minha querida, eu sei, há dias em missão que nos enchem a alma de imagens horríveis, cenários que nos paralisam e nos tentam fazer baixar os ombros. É verdade isso que contas. Talvez Carter se tenha deixado invadir por esse horror até não sobrar, por entre névoas e desaires, a memória de um sorriso.

Sei bem do que falas. Não pretendo ensinar-te nada, que já tens um ano de experiência em desnutrição mas, ainda assim, vou contar-te como foi que percebi a razão de "marasmo" ser precisamente uma expressão que usamos para denotar depressão e apatia. "Gostava de sair deste marasmo", dizem as pessoas quando a sensação de abandono se torna avassaladora e não lhes apetece fazer nada daquilo que em tempos lhes dava prazer. Compreendi isso com uma criança desnutrida que me marcou para sempre.

Essa criança de quem te falo era o Dino, um menino de três anos, internado em Iapala em Abril de 2008, uma semana antes da minha terceira chegada à missão. Estava coberto de feridas nos membros e no tronco, como se a pele tivesse descamado em toda a sua profundidade, mas o que mais me chocava era a forma como se debatia enquanto a mãe lhe enfiava, sem dó nem piedade, com uma colher, a solução de reabilitação nutricional pela goela abaixo. Gritava, guinchava de boca fechada para que a maldita colher não lhe violentasse a nula vontade de comer. Mas em vão. A mãe agarrava-o e tapava-lhe o nariz. Quando abria a boca para respirar, uma nesguinha que fosse, lá vinha o líquido horrendo que, em vez de o fazer voltar à vida, quase o sufocava, ao entrar pelo mesmo orifício que o ar que lhe faltava. Todo ele escorria suor e solução nutricional. Quase me faltava o ar a mim também. Ao seu lado, porém, as outras mães de crianças desnutridas davam a mesma solução aos seus filhos, também sob alguns protestos, mas de longe mais suaves que os do Dino. Por fim, um vómito vinha pôr termo àquela reabilitação nutricional forçada. Para recomeçar pontualmente três horas depois, com uma mãe cada vez mais desesperada, mas igualmente obstinada.

A partir de um certo grau de desnutrição quase todas as crianças resistem a comer, é certo, sobretudo quando se lhes apresenta uma solução desenxabida e à base de leite de vaca, como é a solução nutricional da Unicef (não tenho nada contra o leite de vaca, entendam-me, mas a maioria das crianças africanas tem intolerância à lactose, o que lhes provoca dor e distensão abdominal; e isso, convenhamos, não ajuda nada nestas circunstâncias), mas aquela criança, ainda que ao lado de outras mais desnutridas, fazia impressão. Não sei se metia dó, se metia raiva, se me fazia sentir zangada ou só terrivelmente desconfortável. Passava-se certamente mais alguma coisa. Uma obstrução intestinal? Uma alergia às proteínas do leite de vaca? O que o fizera ficar desnutrido em primeira instância?

A minha amiga Fátima, que tinha ido comigo nessa missão, dizia-me: "Não vês que é ele que está a puxar o vómito? O miúdo é difícil e a mãe não parece muito adequada." Mas para mim difícil era acreditar que todo aquele aparato era puramente comportamental. Será que era uma reação à imposição da alimentação de uma forma tão coerciva? Resistir, fechar a boca e puxar o vómito eram o único espaço de liberdade que restava àquela criança, presa no excesso de zelo de uma mãe desesperada.

Mas a verdade é que todos os dias o Dino perdia peso e não dava qualquer sinal de ter fome ou querer comer. Tentámos de tudo. Distraí-lo com vídeos no iPhone, com canções, com danças, tentámos brincar, chamá-lo à razão, pedir, ameaçar. Por fim, acabávamos por lhe colocar uma sonda nasogástrica... e ele vomitava. Por vezes, quando conseguia que olhasse para mim, fazia-lhe a minha cara furibunda nº 5 e ele parava. Aí não puxava o vómito. Mas por vezes vomitar parecia inevitável. O miúdo era, de facto, difícil. Ou pior. Se calhar não queria mesmo viver... Mas logo me emendava: não, não, não podia ser! Que ideia ridícula. Alguma coisa se passava, de certeza!

A história que a mãe contava, num Português muito acima da média para os habitantes de Iapala (mas que ainda assim não ia além de um sofrível), era que o menino nascera bem e se alimentara exclusivamente de leite materno até aos 8 meses. No mato em Moçambique é habitual o aleitamento materno exclusivo até aos 12 meses, portanto não ter ingerido rigorosamente nada para além de leite materno até aos 8 meses era perfeitamente normal.

Mas a mãe continuava: a introdução de novos alimentos é que tinha sido dramática. Aos 8 meses, quando introduzira a colher, o Dino passara a recusar o leite materno, deixando a mãe com uma mastite terrível. E se ao princípio ainda aceitara razoavelmente o milho, a carne e o feijão, meses depois (não sabia precisar quantos) passara a recusar terminantemente qualquer alimento sólido. Deixara de aumentar de peso. Pouco a pouco tornara-se numa criança irritável, alheada do mundo e das pessoas, deixara de dizer "mamã", deixara de ter interesse em brincar, nem a mãe olhava de frente. Respondia a qualquer tentativa de aproximação de outra pessoa, nem que fosse a avó, com guinchos estridentes. Uma regressão maciça do desenvolvimento.

Acontecera alguma coisa nessa altura?, indagava eu, assombrada com tanto sofrimento no olhar de uma mãe. Não, só o pai tinha partido em trabalho para Nampula, mas não acreditava que fosse isso, o menino nunca fora muito ligado ao pai. E a mãe? Teria ficado triste com a partida do pai?, ocorriam-me histórias de crianças a quem a depressão materna deixara profundas marcas no desenvolvimento. Mas também não fora o caso. Até tinha sido um alívio, confessava-me, porque ele em Iapala não tinha trabalho e estavam a passar dificuldades. Nesse aspeto tudo tinha melhorado...

Pelos dois anos, a única coisa mais ou menos sólida que a mãe o conseguia fazer comer já era apenas papa de milho. Nos dias bons conseguia também fazê-lo comer feijão. Mas sempre sob fortes protestos, praticamente à força. Só comia bem a dormir, mas era difícil porque tinha o sono leve e acordava facilmente.

Até que, aos três anos, tivera uma doença. No hospital disseram que era malária e trataram-no como tal, mas o menino nunca mais se recompusera. Fora acometido de uma diarreia febril que demorou a passar e o fizera perder peso e ânimo. Deixara de andar. A pele caía-lhe, grossa e descamativa, os cabelos tornavam-se descolorados, cor de palha e, outrora rebeldes e encrespados, desfrisavam-se e caiam em catadupa.

Raios! Como é que se chega a este ponto, meu Deus? A mãe pensava o mesmo. Percorrera todos os hospitais das redondezas, não sem antes ter recorrido aos melhores curandeiros. Até que, no hospital, o Sr. Sousa, colega do marido, a convencera a ficar e tentar o programa de reabilitação nutricional. "Não existe outra solução", dissera-lhe. E ela, sem alternativa, ficara.

Mas o que viera primeiro?, perguntávamos. A regressão do desenvolvimento ou a recusa em alimentar-se? Seria uma perturbação do espetro do autismo? Seria uma questão psicológica, assim uma anorexia nervosa infantil, que infelizmente também as há? Seria uma doença intestinal que o fizera sentir-se desconfortável com a comida? Um molho de brócolos, era o que era aquele menino!

Os dias passavam e, com a sonda nasogástrica, os antibióticos e as vitaminas, o menino lá ia aumentando de peso. Quase nada que se visse, mas enfim, pelo menos já não perdia. E havia vezes em que já não vomitava.

Até que uma manhã, na fila para pesar, o Dino, ao colo da mãe, não chorava como de costume. Eu via água a escorrer pelo vestido da mãe, mas como ele era dos últimos da fila e eu estava concentrada em tomar nota dos pesos, pensei que o menino se entretinha com alguma garrafa de água e até me alegrei. Estava mais calmo! Quando chegou a vez dele, quase uma hora depois, percebi, horrorizada, que estava pálido, desidratado, quase em choque. Perdera dois quilos. A gastroenterite que grassava no hospital pela falta de saneamento básico e por as fontes de abastecimento de água estarem contaminadas, tinha-o atingido. Fizéramos todos os possíveis para evitar que a epidemia chegasse à enfermaria das crianças. Aconselháramos toda a gente a ir buscar água a um fontanário que não estava contaminado e a dar unicamente água fervida. A solução nutricional tinha de ser preparada pelos enfermeiros com água tratada. Mas em vão. Quando o saneamento é deficiente é difícil travar as epidemias.

Transferimo-lo para a enfermaria de adultos porque naquele estado não podia estar junto com as outras crianças fragilizadas pela desnutrição. Ainda tentámos colocar-lhe um acesso venoso, mas com ele tão desidratado foi impossível. Até aí, na ingenuidade de quem nunca viveu estes dramas, eu pensava que uma criança desidratada e com sede nunca recusaria água. Ou soro oral. Pensava que uma desidratação daquelas só poderia provocar uma avidez por líquidos. Mas o Dino também não abriu a boca para o soro. Nunca recusara água, mas agora recusava rigorosamente tudo, incluindo água e soro.

Na nova enfermaria, as mulheres doentes olhavam-nos, abanando a cabeça: "Tudo tem limite, Doutoras! Já lá vão quantos dias? Não veem que esta criança não quer viver? Para quê tanto sofrimento? Tenham respeito pela mãe e pelo filho!" E, de facto, o olhar da mãe era de quem tinha desistido. Colocámos-lhe novamente uma sonda nasogástrica para o hidratar, mas a mãe nem sequer o segurou para nos ajudar. Deitou-se na cama do filho e adormeceu. Tinha chegado ao seu limite, aquela já não era a sua luta. Mas... oh, meu Deus! O peso daquela luta era enorme... Seria lícito continuar a fazer sofrer uma criança que já tinha sofrido tanto e que claramente tinha desistido? Foi uma noite difícil, com tantas dúvidas nossas, com tantos olhares reprovadores, com o olhar de abandono do menino, que não vomitava mas também não reagia a nada.

(continua, que o post vai enormíssimo)
28
Ago13

[outras palavras] acentuação

beijo de mulata
é tão difícil dizer amo-te
murmurava ontem um amigo
a propósito de coisa nenhuma e
muito menos de amor

estávamos entre papéis e tintas
com a casa onde nasceu Pessoa mesmo em frente e
talvez por isso
a questão das palavras o
atormentasse daquela maneira

passou os dedos pelos desenhos de um livro e
ficou a olhar para o largo que
se avistava da janela
quem sabe se
procurando os desajeitados beijos de ofélia
nas lajes ressequidas pelo verão

é tão difícil dizer amo-te
repetiu e ficou outra vez em silêncio
atordoado de sol e de heterónimos

então eu disse que isso era apenas
pelo simples facto de a palavra ser
acentuada na primeira sílaba o que
não dava jeito nenhum a pronunciar

ele riu e ficámos então a discutir se
a palavra seria grave ou esdrúxula até que
fechado o livro e arrumados os papéis
ele declarou
adoro-te é bem melhor

e saímos para a rua felizes
por termos encontrado
tão facilmente a
solução do problema
Alice Vieira (lido no seu mural do facebook)

Nota-se muito que estou apaixonada?

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