Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Beijo de Mulata

Beijo de Mulata

23
Abr17

[zambézia, uma história de origens] filhos do coração

beijo de mulata


Vistas do Monte Namúli
(Zambézia, Moçambique)

(continuando...)

Reconheceram-se ainda assim. O perfume doscabelos de Gigi era ainda o perfume delicado do céu e das flores do frangipani.E a barba de Trovão guardava o cheiro a terra molhada e a raiz deembondeiro. Reconheceram-se e amaram-se, como se tinham amado desde sempre. Masa criação divina estava ainda no seu início, e os métodos de gerar vidaeram ainda mais que imperfeitos. Os olhos de Gigi a cada dia transbordavam deum mar maior, e os olhos quentes de Trovão iam arrefecendo o desejo decriar filhos com olhos de céu e cabelos de embondeiro.

Procuraram em vão quemlhes revelasse os segredos dos antepassados, mas gerar vida está só nas mãos deMuluku, era a resposta invariável.

Foi então que decidiram aventurar-se a tornar asubir o Monte Namúli. Mas o monte onde outrora corriam felizese despreocupados era agora o grande tabu da criação. Dizia-se que nenhumadulto deveria subir ao monte de onde viera o primeiro homem, sob pena desucumbir ao mais pérfido desejo telúrico. Mas já só isso lhes faziasentido, para desfazer a tristeza e a maldição em que viviam. Não temiam nuncamais encontrar o caminho de volta porque já só tinham um caminho. E era um caminho só de ida… Tinhamde ir devolver ao embondeiro as raízes que secavam o ventre de Gigi.

E, numamadrugada, ainda cobertos de bruma e cinza, prostraram-se pedindo a Mulukuque os protegesse e perdoasse na subida. O peito pulava-lhes na ânsia dointerdito, num misto de medo e desejo, quando iniciaram a viagem... Mas amontanha parecia chamá-los. Os espinhos encolhiam à sua passagem, as bagasamadureciam, plenas de néctares açucarados e as folhas pareciamcantar: "Não temam, pois tudo recomeça." Nunca o Namúli lhes pareceratão convidativo, tão quente e húmido de vida.

Chegaram, por fim, ao cimo da montanha. Os olhosde Gigi iluminaram-se de bons presságios quando viu que, da gruta revestida araiz de embondeiro, jorrava agora uma nascente de águas mornas. Os olhos deTrovão prenderam-se num frangipani, cujas flores caíam,delicadas sobre a nascente, perfumando o ar com o cheiro da sua doce mulher.Sonhava por instantes, acordado, que Gigi estava em toda a parte, dissolvida epulverizada por todo o céu da montanha, quando um grito o fez despertar daqueledeslumbramento.

Gigi gritava, toda ela assombro e abismo, que aquela nascenteera de água salgada! Assistiram então, aturdidos, ao derradeiro jorro de água,que secou a nascente, mar de súbito vazio, deixando em redor um manto desangue vivo. E depois de um momento, onde coube toda a dor, medo e desesperançado mundo, ouviu-se, de dentro da gruta, um gemido. Seguido da gargalhadainconfundível de uma criança. Precipitaram-se para dentro da gruta. Ao fundo,ainda coberta de sangue e raízes, uma criança com olhos de céu, cabelos deembondeiro e perfume de frangipani. Era uma menina. Uma menina linda e, espantodos espantos, já com dentes de leite. Os mesmos dentes de leite de seus pais. Etrazia dentro dela uma semente de embondeiro, sinal de que Muluku aperfeiçoara a criação e que não queria que os seus netostivessem de passar por todo aquele sofrimento para gerar vida. Felizes,agradeceram a Muluku.

Mas Muluku avisou-os: Não vos esqueceis deque, a partir de hoje, toda a criação e futuro provirá desta criança, decabelos perfumados e olhos de céu e de mar, mas lembrai-a sempre de honrar aseus pais, que tanto sofreram por terem filhos de sementes plantadas fora docorpo. Porque toda a criança é desejada e filha do coração.
21
Abr17

[hoje foi o dia!] zambézia, uma história de encantar

beijo de mulata







O Monte Namúli
(Zambézia, Moçambique)
Fotos: Algumas são minhas, outras daqui.


AsFlores de Frangipani

Há muitos, muitos anos, a Zambézia era uma terraselvagem, quente de origens, onde nasciam fontes de águas mornas e perfumadas,onde a terra era tão fértil que as mais pequenas sementes podiam dar frutos eas montanhas se cobriam de um véu glaucomatoso todas as manhãs. Para que océu só se mostrasse depois de todos estarem bem acordados para opoderem contemplar... Numa dessas montanhas, a que haveria de se chamarNamúli, o primeiro homem surgiu na bruma de uma madrugada,coberto de capim e de folhas, germinado nas raízes mornas de umembondeiro. E, depois de um urro de alvoradas, que só não faz parte dahistória porque ainda não estava lá mais ninguém para ouvir, olhou comespanto aquele céu de paraíso, agradeceu a Muluku, Deus dosantepassados, e desceu avidamente em direção à planície, começando aespalhar a sua semente pelo mundo.

Nessa terra verde, no coração de África, ainda acriação divina não estava completa, nasceu anos depois, um menino de olhosnegros como a terra mais fértil, e cabelo crespo, como os irreverentes ramos deum embondeiro. Era um menino com o coração doce e a cabeça cheia de aventuras,a quem chamaram Trovão. A sua companheira de infância era uma menina terna, deolhos azuis, transbordantes de futuros, e cabelos perfumados, cujo nomeseria Rosa, se nessa terra existissem rosas ou alguém já tivesse sonhado com floresdelicadas. Por isso lhe deram o nome das flores mais doces das árvores maisaltas, porque o seu perfume só poderia vir do céu. O seu nome era Frangipani,mas todos lhe chamavam Gigi, como o som do seu sorriso.

Gigi e Trovão corriam felizes pelas montanhas,trepavam ao cume do monte Namúli, comiam as bagas mais doces dos arbustosespinhosos e construíam, entre segredos e gargalhadas, pequenas cabanas depaus e de folhas, onde mal cabiam deitados e entrelaçados um no outro. Era láque se deixavam ficar em silêncio, na hora do calor, contemplando o céu pelaabertura no teto que Gigi queria manter descoberta a todo o custo, paraque o céu não lhe fugisse dos olhos e para sentir, nos dias de chuva, o sabor redondodo sol. Por vezes, nos dias em que o calor se demorava e a terra estavamais húmida e fértil, o próprio chão se entranhava entre os dois e criavaraízes, como pontes entre um e outro. E era quase difícil despegarem-se,vestidos da mesma pele.

Os meninos foram crescendo, os dentes de leiteforam caindo e eles enterravam-nos no chão da cabana, onde, pouco a pouco, sefoi formando uma gruta, revestida a raiz de embondeiro. Mas, à medida que os meninos cresciam,aqueles momentos de silêncio e cumplicidade foram-se tornando cada vez maisraros. Já todos sabemos, mas eles não tinham quem lhes dissesse, e só depoispoderiam vir a descobrir, que na infância, a dada altura, há uma magia quese quebra, uma gargalhada que se suspende, toda uma vida que se tornamemória... E no dia em que enterraram o último dente de leite, cada um seguiu oseu caminho, porque desde que o mundo é mundo, para crescer é precisoafastar-se da casa onde que se cresceu... Para se poder amadurecere depois poder amar e querer gerar vida...

Gigi e Trovão desceram do Monte Namúli ecresceram em direções opostas, até que um dia, na planície se reencontraram.Ele tornara-se um homem enorme, com a face e o peito cobertos de pelos, dasraízes do embondeiro que se lhe entranharam na pele nas longas tardes da suainfância. Os olhos quentes continuavam doces e cheios de aventuras. Gigicrescera para se tornar numa mulher linda, mas os olhos, outrora de céu, eramagora olhos azuis de mar. As raízes do embondeiro cresciam no seu ventre,secando-o por dentro. E o mar, que sonhava que um dia lhe cresceria no ventre,para depois jorrar vida, só nos olhos lhe crescia todos os dias. E delestransbordava todas as noites. Nos seus olhos já não se viam futuros por causa daquelemar morto no seu ventre, onde só existia sangue e lodo…


(continua...)
20
Abr17

[momentos para sempre] um dia deixo de escrever histórias clínicas...

beijo de mulata
... e escrevo uma história de encantar... Amanhã será o dia!

 Houve tempos em que a viagem dos meus sonhos era ir até às plantações de chá do Gurué, perto das margens do rio Zambeze.
Um dia hei-de voltar... com o baby-de-mulata e Mr. Shaka e os que mais vierem!
(Gurué, Zambézia)

Como pano de fundo, o verde arrebatador e o mito da origem do primeiro homem ali mesmo, nas nascentes do Monte Namúli. Segundo a lenda macua-lomué, foi precisamente nesta montanha que a humanidade teve origem, e o primeiro homem terá surgido numa madrugada, germinado nas raízes de um embondeiro e, depois de beber das águas perfumadas das montanhas*, desceu calmamente em direção à planície e começou a espalhar a sua semente pelo mundo.

Hoje em dia, o Monte Namúli está envolto em mitos e tabus... Diz-se que só se pode subir depois de uma cerimónia longa e difícil levada a cabo por um régulo e com permissão dos antepassados, depois de rezas, oferendas e respeitos. Segundo o mito, e à maneira deliciosamente macua, o guardião do Monte Namúli começa a falar com os viajantes incautos de tal forma rápido que estes se baralham e nunca mais conseguem encontrar o caminho para casa...

(Adenda, por respeito à Prof. Doutora Ruiva, amiga deste mato: gostava que existisse um mito de origem da primeira mulher, mas suspeito que o primeiro homem macua se teve de desenrascar sozinho...)


*Que séculos depois alguém venderia sob a designação comercial genericamente inflacionista de águas gourmet
16
Abr17

[iapala revisitada] as flores do frangipani

beijo de mulata

Esta é a flor do frangipani, uma árvore de xicuembos* e xipocos**, a árvore dos deuses e dos antepassados, de flores românticas e perfumes noturnos... O frangipani tem as flores das manhãs claras, que vêm enfeitar os cabelos das jovens, das noivas, das virgens e os adros das igrejas nos dias felizes.
(Iapala, Nampula)

Como diria o meu amigo Lépido, nós não temos estilos, temos momentos... E eu também tenho direito a dias pirosos! Pronto, era só isto. Aqui no mato-que-já-não-é-mato não temos livro de reclamações. Nem mesmo o Sr. Pompisk, o maior comerciante da Zambézia tinha tal modernice! Para ele, se nos estiver a ouvir, aquele abraço. Tenham um bom dia e que a Páscoa  (ou a Primavera, o que vos disser mais) vos renove.

* Deuses
** Fantasmas
10
Mar16

[inspiração para uma despedida] até sempre, irmã

beijo de mulata
Quem me conhece ou acompanha há mais tempo este blogue sabe que houve um blogue-antes-do-baby-blogue. Antes de ser mãe-do-baby-de-mulata eu era a beijo-de-mulata, e escrevia um blogue de aventura e saudade, um blogue que escrevia para manter vivas as recordações das missões em Moçambique, para que não me fugissem as imagens, nem os cheiros, nem as palavras, nem as músicas... nem a Irmã Lourdes. A irmã que me ajudou em tudo, que foi minha mãe, amiga, companheira, orientadora, animadora, mediadora cultural. Foi com os olhos dela que aprendi a amar o povo macua, compreender os seus paradoxos, as suas angústias, perdoar as suas negligências e atrocidades, admirar o amor incondicional que tinham pelas crianças, respeitar as tradições que protegiam as mulheres, as crianças e os idosos. Com ela aprendi a conhecer crenças, ritos, feitiços, aprendi a compreender de que falavam as pessoas no hospital quando me falavam de doença e o que esperavam de mim. E aprendi que só conhecendo a cultura podemos tratar verdadeiramente as pessoas, conquistar a sua confiança e comunicar.

Há dois dias, depois de quase um ano de luta contra uma leucemia debilitante, não resistiu mais e partiu... Desgraçadamente não pude estar presente no funeral, porque o baby-de-mulata anda adoentado e com mãezite agudizada e porque tinha uma sessão da "Oficina de Pais" para crianças com atraso de desenvolvimento de que era responsável. Mas como ela própria dizia lá em Moçambique, quando eu chegava atrasada à missa depois de um dia longo no hospital: "Não te preocupes, trabalhar também é rezar..."

Felizmente a minha mensagem de despedida chegou a tempo para ser lida no funeral. Foi o meu milagre desta manhã.

"Meus queridos amigos, é com muito pesar que por motivos familiares e profissionais não posso estar presente nesta última despedida da nossa querida Irmã Lurdes, mas gostaria de deixar o meu testemunho como leiga que conheceu uma mulher santa, uma mulher de coragem, absolutamente extraordinária.

Conheci-a em Iapala, província de Nampula, em Moçambique, quando a missão estava no seu apogeu. Para quem a conheceu, a missão era um paraíso no meio de uma paisagem avassaladora, com montanhas, savana verde e céu a perder de vista. Era também um oásis num mar de dor e devastação, de doença a pobreza. E a Irmã Lurdes tinha passado a guerra com o povo. Tinha comido à mesma mesa que os habitantes locais, tinha passado fome com a população, tinha dormido no mato muitas vezes, para no dia seguinte descobrir que uma cobra ou um escorpião se tinha ido aninhar no meio da esteira com ela. Nunca teve medo. No tempo da guerra as cobras não mordiam porque o homem fazia parte da paisagem. Durante a guerra sofreu ataques de bandidos, pilhagens sucessivas, tratou feridos, consolou órfãos e viúvas, tratou doenças até ao limite das suas forças.

Quando conheci a Irmã Lurdes, a guerra já tinha acabado, já não havia minas, já se podia andar com o jipe pelas picadas. A irmã, baixinha, frágil e com voz um pouco trémula, era a última pessoa que eu imaginava ver num jipe enorme a atravessar pontes feitas de bambu, atravessar areais onde se podia ficar enterrado sem dó nem piedade, e a fugir com destreza de buracos no meio da estrada capazes de partir um camião. Dava assistência no hospital, cuidava das meninas do lar, assistia a população envolvente e deslocava-se quase diariamente às quase cem comunidades distantes para vacinar as crianças e as grávidas, pesar os bebés, confortar quem tinha visto morrer os seus entes mais queridos, tratar os doentes que sabia tratar, com os medicamentos da sua bolsa verde-tropa de onde saiam os artigos mais improváveis... e transportar para o hospital da missão quem só no hospital pudesse receber assistência.

Mas a Irmã ia deixar Iapala. Na altura em que a conheci, já estava de partida. Ia fundar a missão do Gilé, na Zambézia. E eu perguntava-me como seria possível deixar Iapala, aquele paraíso fantástico, e ir para uma terra onde não havia nada, onde até as mandiocas eram raquíticas, onde até o terreno tinha areia, onde nem a fé nem a esperança vingavam e a morte espreitava atrás de cada cajueiro. Mas a sua coragem e confiança era inabaláveis: Se era para lá que Deus a mandava... seria para lá que iria! Com a alegria de quem vai ver nascer um novo mundo! E foi o que aconteceu. Podem não acreditar, mas eu vi o "antes" e o "depois". Todo o distrito se desenvolveu com a chegada das irmãs. A Irmã Lurdes tinha fama de santa entre as pessoas. Todos a procuravam e respeitavam. Vinham partilhar dores, preocupações e depois trazer alegrias.

Quando a sua doença começou, cedo percebeu que o fim da vida se aproximava. Mas a sua fé permaneceu inabalável. Se Deus a chamava, pois com certeza que iria! Quando Deus quisesse. E continuou espalhando fé e esperança por onde passava, desde casa até ao hospital, menos por palavras do que pelo exemplo de força e coragem.

E tenho a certeza de que partiu para casa do Pai com a mesma confiança de sempre. E podemos ter a certeza de que de hoje em diante, o próprio céu será um local ainda melhor com a sua presença!

Deixa-me desolada, ainda assim, por não me ter conseguido despedir de si... Parece que é a minha cruz, a de por vezes não chegar a tempo... Mas bem-haja por todo o bem que fez e por tudo quanto me fez descobrir!

Até sempre!"
27
Jan15

[a força que um sorriso pode ter!] rápidas melhoras...

beijo de mulata

 
A minha querida Irmã Lurdes (quem conhece este blogue há algum tempo, quem leu o meu livro ou quem me conhece sabe certamente de quem estou a falar), está internada, depois de mais de um ano de doença crónica e debilitante. Nunca me saíram da mente as suas palavras, num dia em que a médica lhe disse: "A Irmã tem fé, mas sabe... Deus às vezes não é para todos...". Ao que ela respondeu: "O que quer dizer com isso? Acha que não tenho coração para aceitar tudo aquilo que Deus me quiser dar?"
 
Eu tenho inveja desta fé, desta força de amar tudo e todos, sempre sem desanimar. As melhoras, Irmã... Fique com estas imagens, que a poderão animar um pouco das saudades que certamente terá das danças de África. Coragem e confiança!
26
Out14

[vozes brancas] neologismos

beijo de mulata
Há duas semanas tive um acidente feio: ao chegar ao jardim de infância do baby, naquele local em que costumo fazer com ele a transição simbólica do modo "casa/ mãe", em que pode ser bebé, para o modo "escola/ educadora", que que tem de ser um menino crescido, escorreguei e caí com ele ao colo.

Foi um momento terrível quando percebi que ele ia bater com a cabeça no chão empedrado do pátio... Felizmente foi um traumatismo craniano sem gravidade para o lado dele, embora só o tenha deixado depois com mil recomendações à educadora e auxiliar de que se vomitasse ou ficasse mais estranho e sonolento me ligassem de imediato. Já para o meu lado a coisa correu menos bem, porque ao tentar colocar-me debaixo dele para lhe amparar a queda, o esbardalhanço foi total e torci o pé à grande e à francesa. Quase me saiu disparado e bem articulado um palavrão francês, mas já que não podia fazer nada para remediar o assunto, também de nada adiantava praguejar, por isso calei-me, abracei o baby e cobri-o de beijos, enquanto disfarçadamente lhe fazia um apressado exame neurológico.

No meio destas semanas todas fui assobiando para o ar e fazendo vida normal. O problema é que enquanto se assobia para o ar, o pé fragilizado torce mais cinquenta vezes. Por isso, em vez de melhorar fui sempre piorando, até que ontem, no Badoca Park, onde fiz questão de ir em mais um exercício africano (o baby há de querer ir comigo na minha próxima missão a Moçambique, ou eu não me chame beijo-de-mulata!), torci o pé de vez enquanto andava num caminho tipo picada africana com o baby ao colo, tentando chamar-lhe a atenção para o divertido comportamento dos macacos mais jovens

Por fim, hoje lá me tive de render à evidência. E às canadianas. E ao gelo, ao Voltaren e ao Brufen de 8/8 horas certinho.

Há pouco, D. baby-de-mulata, já deitado para a sesta, perguntou-me se podíamos ir a um concerto depois da sesta.
- Oh, filho, vai ser difícil, que a mãe mal consegue andar.
- Mas eu vou, pronto! Posso ir sozinho! E tu, se quiseres, pegas nessas cruzetas* e vais comigo!
- Quais cruzetas, baby?
- Essas... coisas... - apontando para as canadianas.
- Ah, vou de canadianas, está bem, combinado!

Três anos e já ameaça que deixa a senhora sua mãe literalmente pendurada! Isto promete!

*Cabides, no dizer do povo da Beira Alta, terra da senhora minha mãe, que cuida do baby na minha ausência.
08
Set14

[outras palavras] breve história de um desnutrido

beijo de mulata
Mais uma crónica da minha amiga Maria, voluntária pela minha ONG no Niassa, a província mais longínqua e abandonada de Moçambique. Tudo quanto ela escreve me faz vir à mente sons e cheiros longínquos. E só não me faz chorar porque agora tenho várias razões fortes e lindas para permanecer aqui e não fugir mais uma vez para essa terra miraculosa e cheia de vida!

 
O Bento, o menino protagonista desta história...
Mitande, Niassa


"Recordo a primeira vez que ouvi o Bento. Era de manhãzinha, aproximava-me da maternidade para iniciar mais um dia de trabalho quando ouvi um choro demasiado alto para ser o primeiro grito de um ser humano, demasiado sofrido também.
Não me enganei. Tratava-se de uma criança, dos seus 18 meses, que encarnava o dito popular “deve à pele a obrigação de lhe segurar os ossos”. A avó, sua cuidadora, a acrescentar a um discurso nada coerente, sofria de disfemia [gaguez], o que tornava o cenário no mínimo bizarro. Conseguimos convencê-la com muito custo que era mais importante internar a criança no Centro Nutricional do que afastar os macacos que teimavam em roubar-lhe a maçaroca: a sua principal preocupação naquele momento.

O Bento, que tivera a (in)felicidade de ter uma irmãzinha, agora de 5 meses, que lhe tirara cedo de mais o leite e o amor materno, surpreendeu logo nos primeiros dias de internamento por aliar uma teimosia deliciosa a uma inteligência incomum. Sabia perfeitamente qual era a colher em que estavam os medicamentos e não ingeria nada que a avó não colocasse primeiro na boca. O medo que demonstrava antes de provar qualquer alimento levou-me a suspeitar de longos tratamentos tradicionais impalatáveis. Exigia o seu espaço de mais de um metro e meio de raio, impenetrável para alguém que não fosse a avó, espaço este que consegui aos poucos diminuir seguindo à letra os conselhos que a raposa ensinou ao Principezinho na fantástica obra de Saint Exupéry: “É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas--te um bocadinho afastado de mim, assim, na [esteira]. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto….”

Cada dia me sentei mais perto e ao final de um mês tinha-o cativado. Bastava alguém dizer “a Fátima vem lá” para ele colocar um sorriso de orelha a orelha e espreitar… é certo que não fui só eu que o cativei, mas sobretudo as papas deliciosas com sabor a amendoim que lhe preparava.

 Hoje, após 10 semanas de tratamento, teve alta… saiu já ao entardecer, às costas da mãe. No lusco-fusco de um anoitecer colorido, dava gargalhadas ruidosas, brincando ao txipi-txipi (esconde-esconde) na capulana da mãe.

 O Bento foi, mas o trabalho continua, e agora devo dar toda a atenção à Vitória, uma bebé adorável cuja cara desnutrida se resume a uns grandes olhos negros e um sorriso desdentado de orelha a orelha, com peso aos 8 meses inferior ao meu peso de nascimento, consequência de falta de produção de leite materno tardiamente identificada. Há crianças que não podiam ter nomes mais adequados…
Em meu nome, por me permitirem ser agente ativa nestes milagres diários, em nome do Bento, da Vitória e de todas as “Vitórias” de África que sobrevivem graças às ajudas generosas dos benfeitores da APARF, deixo uma mensagem de sinceros agradecimentos e termino parafraseando Raoul Follereau “não sabe o bem que faz quem faz o bem.”

Obrigada, eu, Maria, por me trazeres, a cada crónica, mais um pouco do cheiro de África!
31
Mai14

[outras palavras] voluntariado em moçambique

beijo de mulata
 
Os adoráveis gémeos da Maria!
(Mitande, Niassa)
 
Já vos falei dela: a minha amiga Maria, enfermeira de formação e coração (e, se Deus quiser, quando regressar, também o será de profissão), que está há quase 18 meses em Mitande, uma terra mágica, na província mais longínqua e abandonada de Moçambique. Mulher de sete ofícios: médica, enfermeira, parteira, confidente, mecenas, psicóloga, personal coacher, orientadora vocacional. Há dias escreveu assim na sua página do face:
 
Já foram internados há quase um mês… como é possível ainda não ter escrito nada sobre os meninos dos meus olhos?, um casal de gémeos adoráveis, que conheci em Dezembro… na altura gordinhos, apenas era necessário um reforço na alimentação materna – afinal encontrávamo-nos na época da fome e eram duas crianças amamentadas por uma só mãe. Depois de três vindas ao nosso Centro de Recuperação Nutricional, a mãe não voltou mais…

Voltou agora, muito magra, com os pequenos a pesarem menos que em Dezembro. Pedia desculpas por não ter voltado, adoecera gravemente e “desconseguira” chegar na data marcada… tentara vir depois, mas as chuvas intensas elevaram o rio Lugenda [rico em fauna exótica – cobras, crocodilos, hipopótamos] acima da ponte, pelo que se resignou. Tornou a adoecer e só agora conseguira chegar.
 
Num desses períodos de pouca saúde, descreve que terá tido uma mastite, que lhe “secou” a mama direita. Então, era ver duas crianças-pele-e-osso, famintas, lutando por uma única mama que, de tão sugada, não é agora mais que um pedaço de tecido flácido.

 Agora, já em recuperação – ela mais gordinha que ele, fruto da sua resistência a esses alimentos artificiais ricos em nutrientes [particularmente o maravilhoso pumply'nut - a maravilha da ciência, inpirada em Nutella], vão-me fazendo as delícias das minhas manhãs com os seus sorrisos marotos e caprichos típicos de crianças famintas…

Quem ousa dizer que não são uma delícia estes dois anjinhos?
E eu quase chorei de saudades desse povo que me ficou no coração... Quase me dói o peito. Não me julguem mal, adoro a vida que tenho agora. O preço a pagar por ter adotado o meu baby-de-mulata - não mais voltar a Moçambique -, pagá-lo-ia dez vezes mais, mas a saudade fica a pulsar dentro do peito de cada vez que vejo estes sorrisos envoltos em capulanas.

A minha esperança é que o baby queira ir comigo um dia quando voltar!

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub