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Beijo de Mulata

Beijo de Mulata

25
Jun13

[comentários que valem um post] doença...

beijo de mulata
Comentário da minha amiga Maria, que está no Niassa (norte de Moçambique) em missão de voluntariado sobre o post acerca da febre e relativismo cultural:

Tão típico! A mulher chegar, sentar no gabinete e dizer "Estou doente." E não abrir mais a boca.
- Mas o que sente? - pergunto eu.
E "aquele olhar" da mulher doente e da tradutora como quem olha para um extraterrestre: "Duh, está doente, não percebeste? Mas o que é que tu precisas de saber mais? Dá-lhe murrette* e manda-a embora. Ponto final, não se fala mais nisso!"

* Medicamento
21
Jun13

[outras palavras] febre... pois...

beijo de mulata


Mitande, Niassa

A minha amiga Maria está desde Janeiro deste ano em Mitande, no Niassa (no norte de Moçambique), em missão de voluntariado através da ONG de que orgulhosamente faço parte... É enfermeira, tem um espírito prático e aventureiro como poucas pessoas têm e escreve deliciosamente! A propósito do post anterior sobre o conceito de febre na Guiné-Bissau, lembrei-me deste post dela, no Querida Lamparina:

No outro dia assisti à seguinte consulta de um jovem estudante no Centro de Saúde:
- Preciso de medicamento para malária.
- Como sabes que tens malária?
- Sinto uma malária muito forte.
- Mas o que sentes?
- Dói-me o corpo todo.
- E tens tido frio? [ter frio = febre]
- Não, só tenho uma malária que me faz doer o corpo todo. [e, baixinho, acrescenta] e comichão.
- Comichão onde?
- Aqui - diz rapidamente, sem apontar para sitio nenhum -, preciso de medicamento para a malária. Tenho malária muito grande.
- Comichão onde, mesmo?
- Aqui.

[Na realidade o que o moço tinha era uma infeção sexualmente transmissível...]
Para evitar estas coisas de culpar a Malária de todos os males, resolvi dar uma “aula” às minhas meninas acerca de febre.
- Sabem o que e isto?
- Um termómetro.
- E para que serve?
- Para saber se pessoa está doente. Por debaixo do braço, esperar e depois ler se está muito doente ou pouco doente.

Lá expliquei o que é um termómetro e o conceito de temperatura e de febre. Esforcei-me por deixar bem claro que febre não significa malária necessariamente: afinal era esse o meu objectivo com estas explicações todas. Sugeri que experimentassem colocar o termómetro, a mais pequena não quis, tinha medo que se descobrisse alguma doença, mas a mais velha, mais corajosa, colocou o tal aparelho na axila. “Tem 36,5ºC. Não está doente!”
- Então vamos ver na B.
- Tenho 39,2ºC...
- O que significa?
- Tem malária!
[Definitivamente não sou boa professora...]
20
Jan13

[welcome to mozambique] o som de áfrica...

beijo de mulata

 
Para todos os que, como eu, têm saudades e gostariam de estar neste momento no meio de uma dança e de uma harmonia como esta, só com batuques, vozes, língua macua e menear de ancas. Para os que não conhecem, apreciem o pulsar das gentes, a inesperada harmonia espontânea criada só com vozes e aprendam como se faz o "Elulu" (alarido) das mulheres (2:40). Bom domingo!
(Gurué, Zambézia)
16
Jan13

[ganhar forças e coragem] destino moçambique

beijo de mulata
Lido no mural da minha amiga que vai brevemente em voluntariado para Moçambique.

Parafraseando São Francisco:
Senhor, fazei-me instrumento da vossa messe.
Onde houver desidratação, que eu leve agua purificada e soros;
Onde houver fome, que eu leve pão;
Onde houver dor, que eu leve ao menos um paracetamol;
Onde houver febre, que eu leve testes rápidos de malária e quinino;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver crianças, que eu leve rebuçados;
Onde houver sordidez, que eu leve sabão.
Onde houver lepra, que eu leve tratamento e muita paciência;
Fazei que eu procure mais:
Consolar os ostracizados, que ser consolada pela impotência perante a vontade dos antepassados;
Compreender as doenças tradicionais, que ser compreendida pelos curandeiros;
Amar, que ser amada.
Pois, é dando tudo isto que se recebe a maior riqueza do nosso mundo.
 
Que oração tão bonita e que atitude tão positiva... Força, linda! Não sabes no que estás metida, é certo, mas se alguém soubesse o que quer que seja de antemão nunca arriscaria sequer o canal do parto, quanto mais uma viagem para outro mundo com um bilhete só de ida... Mas vai em frente, que tenho a certeza de que vale a pena!
05
Nov12

[gémeos] um só par é para meninos!

beijo de mulata
De vez em quando não resisto a voltar a este assunto... Tenho uma amiga que foi enfermeira durante a vida toda no Hospital Pediátrico de Coimbra. A Eugénia é uma mulher de armas que parece pelo menos 20 ou 30 anos mais nova do que a idade que tem! Competente, bem-humorada, cheia de energia. (Ela não lê este blogue, não lhe estou a fazer nenhum elogio gratuito!) Há alguns anos, depois de reformada, resolveu partir para Moçambique para ajudar na missão do Marrere, uma localidade próxima de Nampula, a capital do Norte.

O Marrere tem um dos melhores hospitais da região (em termos humanos e organizacionais) e é lá que passa os dias, apoiando os mais doentes de todos: as crianças desnutridas e os doentes com VIH, sobretudo as grávidas e as crianças suas filhas. Há tempos enviou-nos esta foto e a seguinte explicação:


 
O senhor Lino Mesa e a Dona Arlinda Botão foram pais pela décima nona vez, dando deste modo um enorme contributo para a taxa de natalidade da província, para além de serem um caso raro de extrema fertilidade! Das doze gestações nasceram dezanove filhos – cinco gravidezes gemelares, uma gravidez de trigémeos e as restantes de apenas um filho ou seja metade das gravidezes foram gemelares*. É obra! Esta última gravidez gemelar foi seguida aqui na consulta de grávidas.

 Apenas catorze dos filhos estão vivos... Os bebés João e Joana frequentam o centro de nutrição e são apoiados com leite adaptado, roupa, biberões e fraldas. Os irmãos Orlando e Orlanda**, que frequentaram no ano de 2009 a nossa consulta, estão de boa saúde. São um casal muito unido e bem-disposto e o papá Lino acompanha sempre a esposa à consulta dos seus filhos. 

* Este post é dedicado à Ana F. e à Sílvia, as minhas amigas que atualmente estão à espera de gémeos, e também à Ana D., cujos filhos fazem cinco anos!
**Já vos falei das peculiaridades dos nomes dos gémeos em Moçambique, se não se lembram podem ir rever...
01
Nov12

[zambézia versus paris versus new york] criaturas lendárias...

beijo de mulata
 
Nova Iorque tem o King Kong, Paris o Quasimodo, mas...
a Zambézia é exótica!
 
Este é um repost sobre o mito de origem dos macuas, o povo que habita algumas províncias do norte de Moçambique... Sobre o guardião do monte Namúli, vale a pena ler a explicação do Vítor, correspondente honoris causa deste mato, atualmente residente na Dinamarca, mas que viveu na Alta Zambézia durante anos...

Perto de Guruè, na Zambézia, fica o Monte Namúli, que é a segunda montanha mais alta de Moçambique e é, para as pessoas da região, os macuas-lómuès, o berço da Humanidade. Dizem que lá se podem ver as pegadas do primeiro homem. Mas não se devia poder. Quer dizer, ninguém devia poder vê-las. Parece que as coisas mudaram um bocado desde que eu vivi naquela província, e vi guias de viagens recentes que aconselham caminhadas no Monte Namúli. Antigamente só se podia escalar a montanha até um determinado sítio. A partir daí, era proibido, porque era terra sagrada. O castigo de quem se aventurasse até à parte de cima do monte era (como é muitas vezes, nesta parte do mundo, o castigo de quem viola alguma regra costumária) a pessoa perder-se e nunca mais encontrar o caminho para casa. 
O que é original – e delicioso, na minha opinião – na lenda macua é a maneira como a pessoa se perde: se o guardião eterno da montanha lá apanhar alguém, começa a falar com essa pessoa tanto e tão depressa que a confunde completamente; e ela, de tão baralhada que fica, nunca mais encontra o caminho de volta.

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