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Beijo de Mulata

Beijo de Mulata

15
Mar11

[anita na savana] o rinoceronte culpado pelo engarrafamento e outros instantes

beijo de mulata


Vida selvagem, olé!, y sus mirones. A autora dos disparos fotográficos [a R.] declina qualquer inclinação voyerista na maioria dos instantes captados. De facto, foram quase sempre os próprios animais selvagens a manifestar um interesse inusitado pelos olhos que os admiravam...
(Kruger Park, África do Sul)
13
Mar11

[instantes] a vida a andar para trás

beijo de mulata
Um safari até então totalmente sem história.
(Kruger Park, África do Sul)

Ou melhor, sem história com enredo, mas com imagens fantásticas. Um nascer do sol arrebatador, girafas, crocodilos, hipopótamos, hienas malcheirosas, rinocerontes indolentes a atravessar a estrada provocando um engarrafamento na selva, birdwatching até mais não, macacos que numa dança hilariante nos atacaram o brunch e que a contragosto tivemos de afugentar (regras da vida selvagem e da selecção natural), elefantes a beber água do rio...

E eis que uma família de elefantes, com três fêmeas, um macho e várias crias se aproxima e atravessa a estrada à nossa frente. Paramos o carro para as fotografias. Que fotogénicos podem ser estes simpáticos bicharocos... Acabam de atravessar a estrada. Avançamos novamente, que já é tarde. Temos mais um selvático engarrafamento atrás de nós (nem na savana nos livramos do trânsito, valha-me São Cristóvão) e ainda há que regressar hoje para o Maputo... Pois... cedo demais...

Os elefantes ainda estavam muito próximos e o macho não gostou que nos aproximássemos dos seus infantes. Infâmia! Volta-se e vem em direcção a nós. Lentamente. Recuamos também lentamente mas temos mais quatro ou cinco carros atrás de nós [que se há pouco lamentavam ter o nosso carro à frente a tirar-lhes ângulo de visão para as fotografias, agora devem estar a dar graças a Deus por não serem os primeiros na linha de ataque]. Acenamos-lhes que também têm de recuar rapidamente. Estamos praticamente encurraladas... O elefante não nos dá tréguas. Não temos muita margem para recuar rapidamente e também temos receio de que se acelerarmos ele possa lançar-se e correr contra nós. Vai urinando pelas pernas abaixo (sinal inequívoco de que está no cio, foi por isso que reagiu desta forma violenta a uma aproximação tão ligeira). Um riso nervoso invade-nos. Duas donzelas ameaçadas por um paquiderme no cio, nunca tal se viu! Um ataque em câmara lenta, de pôr metodicamente os cabelos em pé e os nervos em farrapos. O carro desastradamente faz, de repente, mais barulho. [Fugiu o pé da embraiagem. A R. sussura-me que isto não está a correr nada bem, que foi muito má ideia. Este ruído de motor pode enfurecer o macho. É que nem pensar em desafiá-lo*! Desculpa, R., não foi de propósito...] O ruído, de facto, enfurece o elefante adamastor, metido em brios. Olha-nos de frente, afasta as orelhas parecendo subitamente maior e muito mais ameaçador. Acelera um pouco contra nós. Ai, valha-nos Nossa Senhora dos Aflitos. Um esforço para não recuarmos muito mais rápido. Ele acaba por não acelerar mais. Apesar de tudo não somos uma ameaça assim tão perigosa com que valha a pena gastar energias. Bem... isto até podia ter corrido muito pior. Continuamos a recuar. Os outros carros também recuam. Alguns mais atrás até já fizeram inversão de marcha. O mostrengo há-de desistir. A família continua a afastar-se e ele tem de os acompanhar... É isso que acaba finalmente por fazer. Depois de quase meia hora em que vimos - literalmente - a nossa vida a andar para trás entra novamente na savana. Aceleramos a todo o gás. Ainda faz menção de vir atrás de nós, mas agora não tem hipótese nenhuma, já vamos muito mais rápido do que ele. Um cheiro intensíssimo a urina de elefante macho invade-nos as narinas quando aceleramos. O guia já graceja novamente: "Sentem este cheiro? Desculpem, fui eu..."

Ai, ai... Como dizia uma freira alemã, abanando a cabeça perante os noviços que tiritavam de frio e angústia com crises de malária: "Áfrrica... não é parra todos."

* Já dizia o Senhor de La Mancha que quer seja a pedra a bater no vaso ou o vaso a bater na pedra... quem se magoa é sempre o vaso, portanto vamos lá com calma, juizinho.
11
Mar11

[outras palavras] a menina sem palavra

beijo de mulata
(Uma Estória para a R.)

A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dialecto pessoal e intransmixível? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam percepção da menina. Quando lembrava as palavras ela esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava em língua que nem há nesta actual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entonação. E era tão tocante que havia sempre quem chorasse.

Seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implorou, certo que falava sozinho:
- “Fala comigo, filha!”

Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse:
- “Mar”...

O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. “Vês, tu falas, ela fala, ela fala!” Gritava para que se ouvisse. “Disse mar, ela disse mar”, repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.

O pai não se conformou. Pensou e repensou e elabolou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.

A menina chegou àquela azulação e seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.
- “Venha, minha filha!”

Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?
- “Vamos filha! Caso senão as ondas nos vão engolir”.

O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Mas peso tão toneloso jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?

Desistido e cansado, se sentou ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas pareciam já se enrolar no peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:

Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.

Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
- “Pai!”

Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.

Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e se calou. A história tinha perdido fio e meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os pés dele, as pernas de sua filha? E ele, em desespero:
- “Agora, é que nunca”.

A menina, nesse repente, se ergueu e avançou por dentro das ondas. O pai a seguiu, temedroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai se espantou com aquela inesperada fractura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos se escoariam?
- “Filha, venha para trás. Se atrase, filha, por favor”...

Ao invés de recuar a menina se adentrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida se fechou, instantânea. E o mar se refez, um. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e o conduziu de rumo a casa. No cimo, a lua se recompunha.
- “Viu, pai? Eu acabei a sua história!”

E os dois, iluaminados, se extinguiram no quarto de onde nunca haviam saído.

Mia Couto in Contos do Nascer da Terra
10
Mar11

[outras palavras] a vida inteira...

beijo de mulata
- [Pai,] eu sou mesmo seu filho?
- É filho de quem então?
- Não sei, a mãe...
- As mães, as mães. Que é que ela lhe falou?
- Nada, pai. Ela nunca me contou nada.
- Pois eu lhe vou dizer uma coisa...

E calou-se. A sua voz se engasgou, parecia ter desistido em meio da garganta. Tentou recomeçar, mas redesistiu. Passou a mão pelo pescoço como se limpasse a voz pelo lado de fora. No enfim de um infinito, ele voltou a falar:
- Você é meu filho. E nunca volte a duvidar.

Batia com os dedos sobre os lábios, a lacrar o dito. Até me podia contar como eu fora concebido. Eu não fora gerado logo inicialmente, no início do casamento. Nem de uma só vez. Quando ele e minha mãe namoravam, sempre que o faziam, o céu se desabava em chuva. Debaixo do dilúvio, o casal se prosseguira amando. Faz conta não houvesse mundo nem chuva. Tinham suas razões: pois há ininterruptos anos que eles vinham fabricando seu único primeiro filho. Amavam-se sem paragem. De cada vez que seus corpos se cruzavam, diziam, estavam fabricando mais uma porção do corpinho do vindouro.

- Esta noite vamos fazer-lhe os olhos.
Como fosse esse o produto dessa noite, eles escolheram fazer amor sob o inteiro luar. Escolheram um descampado bem debaixo da lua. E assim fizeram, iluminados, dando seguimento à confecção do menino. Quantos tempos andaram nisso? Se encolhiam os ombros: um menino assim pode demorar a vida inteira...
- Está-me entender, filho?
 
Mia Couto in O Último Voo do Flamingo

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