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Beijo de Mulata

Beijo de Mulata

28
Mar10

[esperança] sonhos do dia e da noite

beijo de mulata
A caminho do rio para o banho do final do dia...
(Gilé, Zambézia?)

Com que poderá sonhar uma família em cuja língua as palavras "sonho" e "feitiço nefasto" são uma só? Em cuja cultura o futuro é pertença dos antepassados e fazer planos representa uma intrusão intolerável em território proibido...

Concretizando, por exemplo, pode alguém sequer dar nome a uma criança antes de ela nascer? Não! O sacrilégio levaria certamente à morte ou infelicidade da criança e da sua família...
27
Mar10

[nocturno africano]

beijo de mulata


À noite, em Iapala, a aldeia mais bonita da minha vida, no meio do mato em Moçambique, antes de sair do hospital, passava à porta da enfermaria de Pediatria e ficava a ouvir as canções de embalar que as mamãs cantavam em conjunto para adormecer os meninos. Uma das mais bonitas tinha a seguinte tradução do macua:

Quero agradecer-te por teres nascido.
Dorme, porque enquanto estiveres a dormir,
eu vou ficar aqui, a repetir o teu nome!
23
Mar10

[encantos de primeira vez em áfrica]

beijo de mulata


Já vão quase dez anos desde a minha primeira missão de voluntariado em Moçambique, altura em que, ainda com pouca experiência, me colocaram a dirigir o Centro de Saúde da Casa do Gaiato, no meio do mato a 50 km de Maputo...

E uma experiência que parecia inicialmente aterradora, porque não conhecia nem a língua, nem a cultura e mal conhecia as doenças, transformou-se numa paixão!

Precisava permanentemente de uma intérprete, a Inês de Maria, que para além de tradutora fazia também de exegeta e mediadora cultural, adaptando as minhas perguntas à realidade local. Ainda hoje sorrio quando me lembro que perguntava a uma doente com candidíase vaginal se o corrimento era de tipo iogurte e ela, imperturbável, traduzia iogurte para coco ralado ou mandioca cozida... Ou quando comecei a compreender um pouco do dialecto, uma vez uma senhora queixou-se que a filha de sete anos tinha a “dor do mês”.
– Com sete anos já é menstruada?! Perguntei, abismada, ainda para mais porque a menina não aparentava sequer ter sete anos, mas apenas cinco ou seis.
– Não, não é menstruada, assegurou-me a Inês, o que ela disse é que a menina tem epilepsia, aqui as pessoas chamam-lhe tradicionalmente a “doença do mês” ou a “doença da lua”...

(Como se vê, perdi grandes oportunidades de ficar calada, mas foi divertido.)
22
Mar10

[vozes brancas* #4] e vidas pequeninas

beijo de mulata
Entrei para a consulta com uma menina de dois anos ao colo de sua mãe. A sala estava na penumbra e, enquanto procurava o interruptor, ouvi-a perguntar num murmúrio:
- Mãe... onde estão as cores?

(Tenho a melhor profissão do mundo!)

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

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